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100 reféns

Mundial 2010: roubalheira, mentiras e vídeo

A Inglaterra marcou um golo válido que não contou. O da Argentina valeu mas não devia. Inglaterra e México arrumaram as botas. Argentina e Alemanha estão nos quartos-de-final. A FIFA? "Porreiro pá. Deixa rolar".

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Por norma não gosto de ouvir o Rui Santos. Perco-me a contar o número de vezes que repete as frases "já aqui disse uma vez" ou "como eu previa". Para não falar do estado hipnótico gerado pelas riscas do casaco ou pelas gravatas com cores e padrões que eu não sabia existirem a não ser em filmes de ficção científica. Aqueles pedaços de tecido em forma de bacalhau são um verdadeiro case study das audiências televisivas.

Mas quando uma pessoa tem a razão e lógica do seu lado em algo que defende publicamente, ideias válidas pelas quais luta para que sejam implementadas, há que valorizar. E relativamente à introdução de novas tecnologias no futebol como forma de evitar os erros grosseiros de arbitragem e na visão de uma FIFA apens interessada em funcionar no sentido pura e exclusivamente comercial, Rui Santos tem toda a razão.

A FIFA é uma fábrica. Até aqui tudo bem. Mas poderia funcionar como uma fábrica apostada no rigor, segurança e tecnologia, na formação dos trabalhadores mantendo uma visão de futuro. Mas não. Continua a comportar-se como  faziam em tempos algumas fábricas de pirotecnia do nosso país. Com os funcionários a lidar com o material explosivo de cigarro no canto da boca. Ou seja, de vez em quando aquilo dava o estoiro e andavam durante um mês a descolar trabalhadores das paredes do armazém.

Com os árbitros é a mesma coisa. A FIFA podia facilmente dar-lhes condições técnicas para desenvolverem o seu trabalho sem terem setenta mil pessoas num estádio a rir ou chorar ao verem as repetições dos lances que estes julgaram de forma errada. O mais ridículo é que o próprio árbitro pode visionar os lances no ecrã gigante do estádio mas nada pode fazer para emendar o erro. Jamais poderá alterar baseado numa imagem visionada a posteriori. A FIFA proíbe. E a FIFA é o Vaticano do mundo da bola.

Imaginem um juiz num qualquer tribunal a absolver o réu por falta de provas depois de toda a assistência o ter visto num vídeo todo contente a assaltar uma bomba de gasolina. Acham possível? Claro que não. O vídeo seria a prova número um da acusação. O juiz dificilmente iria justificar-se dizendo que não podia usar as imagens ou que o fiscal de linha não deu indicação de fora de jogo do meliante quando este mandou uma marretada com a caçadeira de canos serrados na cabeça do empregado da caixa.

Para a FIFA o que não se vê não existe. Logo, a melhor forma que encontraram de evitar mais situações constrangedoras foi proibir as repetições nos estádios. Ou seja, desde que não se assista à repetição do erro ele nunca existiu. A conclusão que se pode tirar é que quem esteve mal nos lances polémicos foi o realizador e não o árbitro. E assim se vão fabricando resultados em pleno Mundial de futebol 2010.