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100 reféns

Governo combate o desemprego contratando ex-expião

Tiago Mesquita

O povo português devia ser declarado oficialmente bipolar. Se, por um lado - e bem -, se insurge contra a taxa de desemprego monstruosa que nos atinge, por outro, e quando o governo mostra alguma desenvoltura reforçando os seus quadros, retirando um pobre diabo da fila do centro de emprego, cai o Carmo e a Trindade. "É um escândalo" - grita-se por aí. Preso por ter espião e preso por não ter.

"De acordo com um despacho publicado hoje no "Diário da República" e assinado pelo primeiro-ministro Passos Coelho e pelo ministro das Finanças Vítor Gaspar, o ex-espião vai integrar "o mapa de pessoal da secretaria-geral da presidência do Conselho de Ministros na carreira e categoria de técnico superior, em posição remuneratória automaticamente criada de montante pecuniário correspondente à remuneração base da carreira e categoria de origem. Isto é, Silva Carvalho vai receber o que ganhava como diretor dos Serviço de Informações Estratégicas e Defesa (SIED)." Expresso

O governo dá finalmente mostras de estar activamente a combater o desemprego, reintegrando um quadro que saiu pelo próprio pé para ir trabalhar para a privada Ongoing, e que se encontra acusado pelo Ministério Público de abuso de poder, violação de segredo de Estado e de acesso indevido a dados pessoais no caso das secretas. Coisa pouca. Um quadro que qualquer governo gostava de ter por perto, quanto mais não seja por saber demasiado sobre demasiadas coisas e pessoas.

O governo demonstra não só compaixão, dando uma segunda oportunidade a alguém que tentou fazer carreira fora, um profundo respeito pela lei e, mais importante, uma criatividade até agora não vista quanto às soluções de emprego geradas: "Nos próximos dias a secretaria vai fazer uma apreciação sobre as funções que Silva Carvalho poderá desempenhar e onde, tendo em conta as necessidades dos próprios serviços da Presidência do Conselho de Ministros" revelou fonte oficial.

Se não arranjarem mais nada para o senhor fazer, ponham-no a desbloquear telemóveis, a ler as SMS de todos os ministros e a fazer forward das mesmas para quem ele achar apropriado. Fica a sugestão.

Para concluir, resta-me dar os parabéns ao senhor ex-espião pelo novo emprego e ao governo português por estar a dar um ar da sua graça no que toca ao combate do maior flagelo da sociedade actual. Há, afinal, lugar e esperança para todos neste país.

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