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Expresso

100 reféns

É tão bom ir à praia e levar com uma asa de frango na cabeça

Não se sabe ao certo o que fez estalar a discussão. Mas vi um senhor ficar com uma asinha de frango assado pendurada no boné enquanto chupava gordura dos dedos. Uma maravilha.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Uma ida à praia em Portugal pode tornar-se numa autêntica aventura. E o senhor que levou com um asa de frango na testa se soubesse o que ia acontecer provavelmente em vez do bronzeador tinha levado um frasco de molho barbecue para passar no corpo.

Mas nestas coisas o improvável é sempre o mais provável de acontecer. E aconteceu. Dois irmãos discutiam a distribuição "injusta" das partes do frango pela família e minutos depois aquele pedaço de praia parecia o mercado central de Bagdad em dia de atentado. Com estilhaços, gritos e carne esturricada a voar por todo o lado.

Também eu já fui vítima. Estar sossegado estendido ao sol, no limbo adocicado, e levar com uma bola de futebol de praia em cheio nas fuças. É sempre agradável ficar com a palavra MIKASA inscrita na face durante três dias. E uma raqueta na espinha? Noutra situação aterrou-me um velho de 80 anos em cima do rabiosque. Eu era um miúdo inocente. Os dentes do senhor saíram-lhe da boca e fiquei com uma placa assustadora a babar-me a página trinta do livro "Uma aventura em Evoramonte" - escrito pela actual Ministra da Educação.

Agora, à distância, desconfio que a queda foi simulada. Até porque o senhor continuou a cair durante toda a viagem até ao estacionamento. E sempre em cima de meninos com menos de 10 anos. Caiu tantas vezes que na altura pensei que fosse avô de algum avançado do futebol português. Mas a ponta de lança do senhor idoso era outra. E eu era apenas uma criança que nada sabia da vida. Aliás se me dissessem que a senhora que escrevia sobre o pêlo longo do Faial e as traquinices do pequenito Caracol ia ser Ministra de alguma coisa eu também não ia acreditar.

E levar com um daqueles discos, um frisbee, em cheio na boca? Que maravilha. Passar toda a tarde com a boca cheia de areia e a saber a plástico e sangue. A enfiar a língua dentro de buracos onde até há instantes habitavam um incisivo lateral e um canino.

Sempre me agradou estar na praia e sentir o suave e estival aroma Piz Buin factor 6 misturado com o cheiro intenso do arroz de tomate e pataniscas de bacalhau vindos do toldo da vizinha do lado, a Dona Armanda. Que em menos de um metro quadrado de lona montava uma cozinha capaz de envergonhar muita cozinha de restaurante de Hotel em termos de equipamento. Depois era ouvi-la toda a manha a bater os tachos enquanto ouvia os "Diapasão" na rádio Beira Litoral.

Num dia como este, uma picada de peixe-aranha em cheio na mão depois de um mergulho mal dado era mesmo a melhor coisa que podia acontecer. Pelo menos o sofrimento era natural. Bons tempos. Recordados num sentimento agridoce. Mas com muita saudade.