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Expresso

100 reféns

Algumas crianças portuguesas parecem leões-marinhos

A obesidade está aí. Se os miúdos continuarem a comer desta forma, o cantor Carlos do Carmo vai ter de fazer uma versão adaptada da música "Os putos" e chamar-lhe "Os gordos".

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

No meu tempo os putos estúpidos (onde me incluo) gostavam de fazer pouco dos miúdos mais gordinhos da turma. Assim à distância tenho pena, mas a verdade é que normalmente os mais rechonchudos acabavam sempre por ir à baliza no recreio. A fraca capacidade locomotiva empatava a equipa se jogassem noutra posição. Desta forma a solução era colocar o gordo entre os postes, ocupando assim mais espaço, o que fazia diminuir significativamente a probabilidade da equipa sofrer um golo.

E não se pense que isto é maldade intrínseca das crianças. É sim um sinal de inteligência. Basta verificar que 90% dos guarda-redes de andebol são gordos. As balizas são pequenas e a maioria das bolas acaba por lhes ir bater no corpinho. No final dos jogos se levantarem a camisola parecem zebras com tanta nódoa negra desenhada na pele. Todavia hoje em dia tudo mudou: é o miúdo magro o elemento estranho e é ele o ostracizado nos intervalos. E é bem feito, digo eu.

Mas o preocupante é constatar que segundo algumas estatísticas 30% das crianças em Portugal têm excesso de peso. Ou seja, nesta altura do campeonato e nos recreios de Portugal não é só já o guarda-redes que é anafado mas também toda a defesa. Boas notícias para o andebol portanto mas péssimas para o país.

O que mais choca em tudo isto é que alguns pais contribuem e de que maneira para que isto aconteça. Ontem mesmo assisti a um diálogo familiar na zona de restauração de um centro comercial e fiquei preocupado. Dizia a avó à filha sobre o neto: " O Fábio come que é uma maravilha".

Eu olhei para o Fábio. O garoto devia ter uns 12 anos mas tinha corpanzil para me deitar abaixo com uma palmada na boca. Estamos a falar de uns 80 quilos de Crispy McBacon. O miúdo derretia o segundo hambúrguer com um voracidade tal que me pareceu a certa altura ver ketchup a sair-lhe pelo nariz. Fez-me lembrar os leões-marinhos a ser alimentados no Zoomarine de Albufeira. Só que em vez de sardinhas os tratadores neste caso atiravam Chicken McNuggets ao pequeno grande Fábio.

A seguir ainda foi buscar uns aros de cebola à concorrência para sobremesa. Tudo acompanhado de batatas fritas e Coca-Cola. A refeição do Fábio dava para matar a fominha a 30 famílias do Biafra durante 6 meses. Pelo menos em termos calóricos.

A falta de responsabilidade dos miúdos em termos nutricionais é o reflexo do desleixo de alguns pais. Mas o pior é que os miúdos acabam por crescer sem fazer a menor ideia de como se devem alimentar correctamente. Caminhamos para a obesidade generalizada num futuro próximo. E com a crise que se está a viver dispara a corrida às cadeias de fast food, com muitos milhares de calorias a preços irrisórios. A satisfação plástica e momentânea será um dos maiores problemas de saúde no futuro.