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Expresso

100 reféns

A vuvuzela a tocar e a crise a passar

Os grandes eventos futebolísticos são os melhores amigos dos governantes. A crise foi abafada pelo barulho ensurdecedor das vuvuzelas. Mas quando finalmente se fizer silêncio é que vão ser elas.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

O Mundial já mudou o nosso quotidiano. Não estou a falar do apoio dos portugueses à selecção porque tem-se visto pouco e com razão. Há equipas de futebol de praia a jogar com mais entusiasmo e talento do que os intitulados "Navegadores". Estes marinheiros de água doce não conseguiam atracar uma gaivota com escorrega na praia de Armação de Pêra.

Estou sim a apontar para o facto de durante aproximadamente um mês estar tudo entretido a contar os pêlos das pernas dos jogadores com o super slow motion da televisão (aquela repetição moderna que transforma o suor nas Cataratas de Niágara) e ninguém se lembrar de rigorosamente mais nada.

Ninguém quer falar da crise quando há futebol. O Mundial é o período de férias da crise. O Papa e o Benfica foram fins-de-semana prolongados. A crise está nesta altura provavelmente hospedada num hotel da Cidade do Cabo e vai pacientemente assistir aos jogos com a camisola de Portugal vestida e de vuvuzela na mão. E sopra como quem diz "estou aqui a tocar isto mas não me esqueço de vocês. Mal acabe este circo já vos toco a todos".

Não há TGV, Comissão de inquérito, escutas, Tango, Submarino ou medida de austeridade que resistam a um jogo Portugal - Costa do Marfim ou a um Brasil - qualquer coisa. O Governo pode vender o Algarve aos ingleses durante este período que ninguém vai dar conta. A menos que façam do Zezé Camarinha mayor de Albufeira e ele comece a assediar as administrativas da Câmara ninguém mais se irá queixar.

Este estado de letargia generalizada dura um mês. Para nós menos tempo é quase certo. Depois, quando as vuvuzelas se silenciarem após o derradeiro sopro vamos finalmente acordar para a dura realidade. E restar-nos-á começar a penar.

Ainda vamos ter muitas saudades do barulho "aconchegante" das vuvuzelas.