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Sinais Vitais

Viver para sempre



Templo funerário de Ramsés III, em Medinat Habu, Tebas

Quando a vida tem qualidade ninguém ambiciona o seu fim. Faz-se tudo para o evitar, fabricam-se mecanismos para viver além da morte. Talvez por isso ainda ardam chamas nos mausoléus de líderes políticos embalsamados. Enquanto houver corpo há vida eterna.

Há cinco mil anos os antigos egípcios dedicavam as suas vidas a preparar o Além. Não eram uma sociedade mórbida, apenas amavam exacerbadamente a vida e queriam que esta se prolongasse para lá do limite natural. Durante milénios burilaram uma técnica que chegou aos nossos dias e que ainda se pratica: a mumificação artificial.



Sarcófago com múmia de criança (entre 10 e 13 anos de idade) datada de 2500 a.C., Ilha Elefantina, Assuão

A mumificação era, então, uma arte mística executada segundo rituais que preparavam o corpo para a longa viagem até ao reino de Osíris, o deus dos mortos. Uma morte de luxo acessível a poucos durante a vida.



Cabeça mumificada com 4000 anos encontrada na Ilha Elefantina, em Assuão

Depois de lavado o corpo com água e ervas aromáticas, introduzia-se um estilete pela narina esquerda e partia-se o etmóide, um osso da base do crânio, para aceder ao cérebro. Com uma espátula reduzia-se a massa encefálica a uma espessa papa e evacuava-se a cavidade craniana com o auxílio de uma colher. Do lado esquerdo do abdómen, os sacerdotes inspirados por Anubis, o deus da mumificação, faziam uma pequena incisão por onde extraíam quase todos os órgãos abdominais e torácicos usando pinças, tesouras e afastadores. Só restavam os rins, por serem de difícil acesso, e o coração, por ser a sede da alma. Uma escova limpava os restos que permaneciam dentro da cavidade, um espigão furava os ossos para que se pudessem unir com fios e uma agulha cosia a incisão lateral. Era uma técnica com método e foi, também, esta técnica que deu à luz alguns dos instrumentos cirúrgicos que hoje utilizamos.

Desalojados os órgãos associados ao início da putrefacção, encetava-se a segunda etapa deste processo. O corpo desabitado era imerso durante quarenta dias em natron, uma solução de compostos de sódio altamente concentrada que desidratava até à exaustão os tecidos. Ao mesmo tempo conservavam-se os órgãos em quatro jarros de alabastro, cada um destes protegido pela cabeça de um dos filhos de Hórus. Imesti, de cabeça humana, guardava o fígado. Qebehsenuef, o de cabeça de falcão, os intestinos. Duamutef, cabeça de chacal, o estômago. Hapy, cabeça de babuíno, os pulmões. Quatro jarros a serem fechados no túmulo juntamente com a múmia.



Animal sagrado mumificado para acompanhar o morto na vida do Além, Ilha Elefantina, Assuão

Findos os quarenta dias de desidratação, o corpo era lavado e ungido com óleos sagrados ao som de orações. Eram postas, por fim, as ligaduras que mantinham o corpo em posição para iniciar a sua viagem. Sobre o coração colocava-se um amuleto em forma de escaravelho com inscrições do Livro dos Mortos. Assim se lembrava o coração para não revelar os pecados do seu proprietário durante o julgamento presidido por Osíris. Fechado o cadáver mumificado no seu sarcófago, estava pronto para as cerimónias fúnebres. A acompanhá-lo para a outra vida ia uma procissão de animais mumificados: animais de estimação, sagrados e para o alimentar.

Os antigos egípcios foram os primeiros a viver eternamente.

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Tráfego cairota

O Cairo tem onze milhões de habitantes e uma quantidade proporcional de veículos automóveis. Os carros, que noutros contextos estariam em museus ou num cemitério de viaturas, circulam sem catalisadores e são alimentados a gasolina com chumbo, produzindo uma nuvem de poluição que deixa a cidade mergulhada na bruma corrosiva. As buzinas pedindo continuamente prioridade já são parte dos próprios cairotas. Queixam-se frequentemente da vida limitada que têm mas nunca da poluição atmosférica e sonora.



 


Luís Mieiro, médico