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Sinais Vitais

Uma estrada de pó

O norte do Quénia é um deserto. Não se trata de um deserto de areia, daqueles onde só chove uma vez em cada dez anos. É um deserto humano. São setecentos quilómetros de infinito. Um caminho lavrado na terra segue até à fronteira etíope. Só ali passa quem precisa. Não há carros nem transporte público. Apenas camiões de transporte de gado. Vacas e ovelhas compactadas atravessam fronteiras para alimentar o consumista sul queniano. No regresso seguem toneladas de arroz, o alimento que não existe no norte. Os assaltos e os somalis evadidos fazem desta estrada um perigo virtual.

Sento-me onde termina o asfalto aguardando a cortesia de um camião. São incontáveis horas de espera. Nunca se sabe quando passa o transporte para o norte. O sol arrefece. Alguns camiões encostam. Discuto o preço da já sobrelotada capota que cobre a mercadoria e sou autorizado a subir pela armação metálica. Há uma imensidão de gente inumada naquela lona recolhida. São inúmeras cabeças entrelaçadas em pernas perdidas. São mulheres a amamentar crianças exaustas, jovens a cantar ao som de um rádio que já não se fabrica, velhos de rostos cansados mas a sorrirem da minha presença inesperada. O camião parte. As minhas pernas dançam ao sabor dos buracos da estrada. É inútil contar o tempo.



O deserto de Chalbi atravessado em cima de um camião







Um mar de gente sobre um camião é a única forma possível de viajar no norte do Quénia

Em vinte e duas pessoas que consigo distinguir entre a mescla de membros só uma fala um pouco de inglês. Mohammad é estudante. Faz esta viagem quatro vezes por ano. Estudar no norte foi a solução que encontrou para os inexistentes recursos da família. O governo queniano tornou o ensino gratuito no deserto recôndito para que este se povoe. Para Mohammad foi uma oportunidade. Desta vez leva consigo o seu irmão Guyu. Guyu tem dez anos e não sabe ler nem escrever swahili. Vai para escola porque é gratuito. Faz esta estrada de pó que corrompe os pulmões porque vai para a escola.



Guyu, 10 anos de idade, faz pela primeira vez esta viagem



Passo a fome do jantar agarrado à cobertura para não escorregar. Guyu ri do meu medo de quem nasceu a usar cintos de segurança. Toda a bagagem de Guyu se resume às calças sujas que traz, à camisola azul e às chinelas gastas. O saco de plástico enrolado no bolso trazia comida no início da viagem.

O camião pára numa aldeia de adobe para dormir. São gélidas horas de um céu onde as constelações se perdem no mar de estrelas incandescentes. Guyu treme enquanto dorme. O dia acorda com um sol frio ao som das orações para Meca.

Estamos em território Samburu, uma tribo antropologicamente semelhante aos Masai mas sem as regalias sociais destes. Mohammad pergunta-me se estou confortável. A estrada poderia ser um pouco melhor. "Sabes por que é que esta estrada não está asfaltada?".

Olho-o pedindo resposta. "Porque não são Kikuyu.". Os Kikuyu estão no poder desde a independência do Quénia. Esta estrada é a promessa eleitoral de um país que ainda só se encontra no terceiro presidente em meio século de autonomia.

Este é um país de desabafos eclipsados pelo turismo do sul e uma aparente estabilidade que faz dele uma porta de entrada na África Oriental e uma saída garantida para as exportações do continente. No dia-a-dia, o Quénia dos quenianos é étnico.





Uma mulher da etnia Samburu: os problemas de comunicação não me deixam saber o nome nem a idade

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Ahmed é um dos barbeiros de Marsabit, um lugar no norte do Quénia. Para Ahmed mascar miraa não é uma adição. A miraa é uma planta psico-estimulante largamente difundida nos países de cultura islâmica e Ahmed justifica o seu consumo exagerado por lhe ser interdito ingerir álcool. Um saco de miraa custa 50 shillings quenianos (aproximadamente 55 cêntimos de euro). É uma dependência com repercussões no orçamento mensal de Ahmed, dado que pode passar um dia sem comer mas não aguenta um dia sem miraa. Noutros países, a miraa é também conhecida por khat, qat ou chat. Na Tanzânia o seu consumo é ilegal e há sanções previstas na lei para os infractores.



Luís Mieiro, médico