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Sinais Vitais

Treze meses de sol



Trezes meses de sol no sul da Etiópia

O calendário etíope tem trezes meses. Treze meses de sol. Um slogan atractivo que calcina o país. Treze meses sem água. É uma realidade que nos acorda quando abrimos uma torneira estéril.

O sul da Etiópia é seco. O azul do céu desidratou todas as nuvens. A única coisa que chove por estes lados é a ajuda de emergência para fornecimento de água às populações. São projectos dirigidos, com aplicações específicas para cada metro cúbico importado. Não é água para beber. O sul da Etiópia necessita de água para fazer germinar as anidrizadas sementes que insistem em não sair dos seus tegumentos.

Quando o único fruto da colheita é a fome, só resta uma hipótese: migrar. Nos países sem redes eléctricas não há motor de desenvolvimento mas também não há ilusão. A Etiópia tem electricidade e televisão. Uma televisão construída na capital onde desfilam imagens invejáveis. Vende-se de tudo: modelos de vida e prosperidade garantida. Addis Ababa significa "nova flor" mas a única coisa que floriu nestes cem anos de vida da capital etíope foi o zinco dos telhados das casas improvisadas. Este bairro de lata é grande demais para caber numa televisão tão pequena.

Como tantas outras terras prometidas deste Mundo, em Addis Ababa também há desilusão, fome e pobreza. Todos pedem. Novos, velhos, saudáveis e doentes. Pedir aprende-se in utero. Grupos de crianças cercam-me, não me deixam seguir o meu caminho. Pedem de tudo: dinheiro, comida, canetas, papel, roupa, doces. Dar é perpetuar uma rotina que não dignifica um povo, é contribuir para um estilo de vida que entristece as gerações mais velhas. Dar é afastar os etíopes de uma herança património da Humanidade e, assim, ajudar a destruir uma cultura única.



Sentadas nas traseiras da HOPE Enterprises, em Addis Abada, à espera da refeição quente do dia



Nas ruas de Addis Ababa há uma esperança. A HOPE Enterprises foi criada nos anos setenta, numa época em que já não havia a quem pedir. Ensina a pescar. Ministra o desejo de querer escalar a pirâmide das necessidades. A sua missão é ensinar a auto-suficiência. É uma esperança sem rosto, sem protagonismos lucrativos. Aqui só há lugar para a vocação. "Ninguém pode fazer da pobreza dos outros uma profissão", diz-me uma voluntária enquanto prepara a cozinha para as quase mil refeições diárias. Lá fora, ouve-se o organizar da multidão. Esperam uma refeição simples mas nutritiva, uma refeição quente.



Crianças que pedem, em horário teoricamente escolar, nas ruas de Gondar



A HOPE espalhou as suas escolas pelo país. Dá comida e educação. Quer evitar a corrida à capital, o êxodo, a desertificação do sul. Quer dar condições para se sobreviver onde se nasceu e, em trinta anos de dedicação ao povo etíope, já conta com muitas histórias de sucesso, às quais chama "jóias". É um tesouro nesta ilha cultural.



Anos esperando por uma refeição



Ajudas? Mais importante que o dinheiro das doações é a contribuição única que só cada um de nós pode dar. Um atelier de arquitectos holandeses ofereceu o projecto para a Universidade HOPE, uma empresa de construção civil os materiais e um grupo de empreiteiros a mão-de-obra. A primeira aula está marcada para Setembro de 2008.

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Igreja Ortodoxa Etíope

Congelada no frio das montanhas do norte da Etiópia, existe uma Idade Média perdida no espaço e no tempo. A Fé Cristã subiu o Nilo Azul e fixou-se na Etiópia pouco depois da morte de Cristo. Isolada na sua própria geografia, e vivendo como uma bolsa no seio do Islão, a Igreja Cristã Etíope seguiu o seu rumo sem conhecer os destinos das suas congéneres pelo Mundo. Desenvolveu-se com influências do Judaísmo e do paganismo egípcio. Por isso, os ritos incluem cânticos e danças executadas por sacerdotes munidos de instrumentos simbolizando elementos naturais. Tal como se sucedia na Europa medieval, os casais que pretendem constituir família apresentam-se no serviço religioso semanal para receberem a bênção de Deus. Os noivos são vestidos como reis. Os mantos e as coroas são símbolos do poder divino. O Matrimónio é, para os etíopes, uma cerimónia de investidura. A Igreja Etíope foi baptizada Ortodoxa pela sua diferença, não pela sua profissão de Fé. Não tem qualquer relação institucional com as Igrejas Ortodoxas Grega ou Russa. Em termos doutrinais aproxima-se da Igreja Arménia.





Luís Mieiro, médico