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Sinais Vitais

Ricos e pobres



O autocarro que não partiu

 

O autocarro enche pouco a pouco. É estranho ainda não ter partido. Um homem sobe e comunica algo em hindi. Todos suam um suspiro de conformação. O autocarro não parte. Parece que há protestos e revolta popular no nosso destino. Uns saem, outros procuram alternativas. A minha vizinha da frente acomoda-se e dorme à espera que o tufão da insurreição passe. O vizinho de trás explica-me: "Eles vivem mal e os outros não os ajudam em nada.". Eles são os pobres e os outros são os novos-ricos.

 



Bairro de lata em Nova Deli

 

Não é a primeira nem será a última vez que isto acontece. Quando a gota de água da indiferença faz transbordar o copo da carência nenhum transporte se atreve a meter o pé na estrada e os estados são obrigados a fechar as suas vias de comunicação. Histórias de comboios incinerados e autocarros lapidados vivem na memória de todos.

 



Sem abrigo em Jaipur

 

A pobreza é uma constante histórica na Índia e não parece dar sinais de alívio. A única diferença é que antigamente a pobreza era rural, contida, escondida, remediada e agora está a tornar-se catastroficamente urbana, sem mais sítio para onde fugir. Os bairros de lata alastram-se pelos espaços livres das cidades. É um cancro sem cura. É o êxodo rural à procura da legítima vida melhor. Sem recursos, as condições de vida na cidade tornam-se piores do que no local de origem. As habitações de zinco são instáveis, permeáveis a animais e incubadoras de doenças. Sem saneamento básico, o espaço que sobra é a casa de banho de milhões. E, mesmo assim, estas casas de improviso multiplicam-se e infiltram-se até onde puderem. Não é raro ver ilhas de luxo na pobreza de zinco. O luxo já lá estava, a pobreza é que o circunscreveu. No dia-a-dia, este tudo e nada parecem viver harmoniosamente, cada um conhecendo os seus limites, sabendo que há linhas que não se transpõem. Mas, por vezes, o ser ignorado a todas as horas do dia não cabe em si de indignação e sai para rua pronto a gritar que também existe, que também é gente e que, infelizmente, é a maioria. Nestas alturas, todos se trancam em casa, os transportes não circulam.

 



Hotel de luxo com vista para o bairro de lata em Ahmedabad

 

Na Índia estão a nascer grandes fortunas das tecnologias de informação. Gente que, por vezes, também saiu do sufoco da miséria e que deseja avidamente respirar sozinha. É difícil olhar para trás. É difícil partilhar a primeira bolacha. É mais difícil ainda ir buscar quem ficou pelo caminho. A revolta dos pobres é contra isto. Contra os que saíram da pobreza e se esqueceram de onde vieram.

 

O futuro das cidades será o cinzento oxidado dos bairros de lata. Ninguém acredita que este cenário possa um dia desaparecer porque a vida urbana sempre será um pulmão para quem asfixia na ruralidade infrutífera. O desalento e as portas fechadas gerarão mais pobreza e esta perpetuar-se-á. O que vale a tanta miséria é o credo numa próxima vida que, se bem tratada nesta, será bem melhor. Talvez isto explique a pouca criminalidade num imenso oceano de necessidades.

 

Na Índia, os problemas resolvem-se em casa e o que mais lhes dói é que a casa não se mostra muito interessada em resolver os problemas.

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Comunicar pela arte

Muitos dos países afectados pela iliteracia crónica desenvolveram métodos simples e lúdicos de educar. O meio rural indiano é rico em histórias transmitidas ao longo de gerações, ou criadas recentemente, com o intuito de polir a mentalidade colectiva.

O teatro de marionetas é um dos brilhantes exemplos desta forma de comunicar. Tudo pode ser contado por estes personagens articulados. Se por vezes há personagens para entreter, por outras há personagens que dizem o que não se pode dizer fora do palco.

Ganesh, o deus elefante, conta a sua história. Parvati, consorte de Shiva, deu à luz um filho enquanto o marido estava ausente. Quando Shiva regressou a casa, uma criança brincava à sua porta. Shiva pediu-lhe que o levasse à presença de Parvati mas a criança, desconhecendo a identidade daquele homem, recusou. Num acto de fúria, Shiva decapitou a pobre criança não sabendo que acabara de cortar a cabeça ao próprio filho. Quando Parvati assomou à porta e viu aquela tragédia explicou o terrível equívoco a Shiva. Atravessado pelo arrependimento, este prometeu restituir a vida e a cabeça ao seu filho. Mas os deuses, na Índia, nem sempre podem tudo e, quando se renasce, é com outras características físicas. Por isso, Shiva decidiu dar a nova cabeça à semelhança do primeiro animal que visse. O primeiro animal que viu foi um elefante e Ganesh recebeu esta cabeça no seu corpo de homem.

As marionetas também falam do dia-a-dia terreno, das festividades e dos problemas domésticos. Discute-se o que se espera de uma boa mulher, de um bom homem e que muitas vezes se zangam porque gostam de meter o nariz onde não são chamados.

Para quem não tem acesso ao cinema e ao mais recente sucesso de Bollywood "Aap kaa Surroor" sobre o pai muçulmano que mata a própria filha para que ela não case com um hindu, há sempre a propaganda, umas vezes mais nítida outras mais dissimulada, contra os vizinhos irmãos Paquistão e Bangladesh. O homem do Bangladesh é o diabo em pessoa, capaz de cortar a própria cabeça e andar com ela nos pés. Esta é uma lenda tão enraizada na cultura hindu que o homem do Bangladesh se tornou um sinónimo de maldade.

O teatro de marionetas é ao mesmo tempo catequese, aulas sobre o lar e perpetuação de zangas familiares depois das partilhas.

Luís Mieiro,

médico