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Qat





Abu Bakar e o seu ramo de qat para a viagem



São quatro horas da tarde. Sobre a cidade paira um "Ashhadu an la Ilah ila Allah, Ashhadu an Mohammed rasul Allah" cantado a diferentes ritmos do alto dos minaretes de Sana'a. Não há Deus senão Allah e Mohammed é o Seu profeta, anunciam. A vida renasce por todo o Iémen. As mulheres saem de casa, os souqs ressuscitam, as crianças brincam entre os impressionantes arranha-céus de adobe. Os homens procuram a ocupação do resto do dia: o qat.



Dois iemenitas numa barragem rodoviária. Abdullah (à direita) consome dois ramos de qat por dia.



A sociedade iemenita é feita de águas separadas. Mulheres para um lado, homens para o outro. Esferas que só se cruzam em privado. Os símbolos ostentados são elementos homogeneizadores, unindo e criando um sentimento de pertença a um grupo. Desde pequenos que os rapazes iemenitas aprendem a orgulhar-se do punhal com as características do seu clã que trazem à cintura. É, também, em pequenos que aprendem a mastigar qat e a despender quatro a cinco horas por dia nesta actividade.



Um wadi (vale) fértil onde apenas cresce qat




O qat (khat ou chat, consoante o país) é um arbusto. Na África Oriental chamam-lhe miraa. Altamente apreciado, o qat tornou-se ilegal e recebeu o estatuto de droga nalguns países africanos pelas repercussões indirectas que trouxe às economias locais.

Os iemenitas são dos povos mais acolhedores que existem neste planeta e os convites para uma tarde a mastigar qat são parte da sua rotina. São momentos de convívio e repouso. O qat é bastante amargo e deixa uma sensação de anestesia na boca. Mastigam-se apenas as folhas mais ternas e os caules mais jovens mas não consigo evitar uma expressão facial de desagrado. "É normal.", riem. Dizem que é preciso mastigar durante várias horas para perder o sabor áspero. Desisto à terceira tentativa cultural.



Um militar nas dunas do deserto iemenita



Todos mastigam qat. Militares das inúmeras barragens rodoviárias, motoristas de autocarros, desempregados, estudantes, comerciantes. Pode haver escassez de água no deserto, mas qat nunca faltará.

"Isto não é droga! É melhor que café!", apressa-se a esclarecer Abu Bakar, um companheiro de viagem, quando recuso a generosa oferta de um ramo de qat. Já esqueceu o sabor acre que impressiona os principiantes.

Esta aura de droga que envolve o qat leva-me a procurar bibliografia. A medicina autóctone utiliza-o na depressão, fadiga, obesidade bem como nos tratamentos de úlceras gástricas e infertilidade masculina. Também pode ser usado para diminuir o apetite, o sono e o desejo sexual mas, aparentemente, aumenta a agressividade. Estas folhas viciantes contêm catina, um substância que possui um décimo do efeito estimulante da anfetamina, e catinona, semelhante a alguns fármacos utilizados em reanimação. Ingerido em doses elevadas pode induzir comportamentos paranóides, psicóticos, maníacos e agressivos. O efeito secundário mais frequente é a verborreia.

Talvez esta descrição farmacológica ajude a esclarecer a hospitalidade iemenita e a seu temperamento irascível. Talvez por isto a Organização Mundial de Saúde tenha posto o anódino qat na lista das drogas que causam dependência.

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Sala

A Sala é um dos cinco pilares do Islão. É a obrigação de rezar cinco vezes ao dia. O apelo à oração é uma constante em qualquer cidade árabe e é uma forma de marcar as horas do dia. O sol põe-se em Sana'a, no Iémen, ao som do quarto apelo do dia. Os muezzin anunciam:

Allahu akbar, Allahu akbar

Ashhadu an la Ilah ila Allah

Ashhadu an Mohammed rasul Allah

Haya ala as-sala

Haya ala as-sala





Luís Mieiro, médico