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Expresso

Sinais Vitais

Os pobres dos pobres

 

É cedo. É o único momento de silêncio em Calcutá. Pelas ruas fluem caras que vieram de longe. São de todos os países, de todas as idades. Uns vieram com destino marcado, outros por curiosidade e outros, ainda, por acaso. O que tanto atrai é a mensagem de uma mulher também ela estranha a este país. Uma mulher a quem, por tanto trabalhar para esta cidade, se lhe esculpiu o nome. Numa sala do pátio da Casa Mãe das Missionárias da Caridade, jaz a sua fundadora. Madre Teresa de Calcutá vive na morte como viveu na vida. Paredes vazias, chão de cimento, sem bancos, sem conforto. Na sala ao lado, há a confusão, os cumprimentos em todas as línguas, o pequeno-almoço de mais um dia de trabalho. São todos voluntários.

 

 

O sino toca, é hora de partir para as casas onde cada um ajuda. As mãos são sempre poucas para o trabalho que há. Mas, nestas coisas de ajudar quem precisa, há sempre críticas e Madre Teresa não escapou às suas. Foi acusada de déspota religiosa trabalhando para converter hindus e, horror dos horrores, capaz de deixar um doente para orar. Como se isto não bastasse, era uma obcecada pelo sofrimento físico e não aceitava máquinas de lavar roupa ou loiça. Pior, pouco fez pela erradicação da pobreza. Críticas de quem tem água nas torneiras.

 

 

Impressionada pela pobreza das ruas de Calcutá e a indiferença com que, ainda hoje, é encarada, Madre Teresa fundou a primeira casa ao lado do Templo de Kali. Nirmal Hriday é uma casa para os doentes e moribundos. Uma casa onde se morre limpo, sem fome, com uma mão, com um sorriso e não como um animal no esgoto como terá sido provavelmente grande parte das suas vidas. É uma casa sempre agitada, cheia de gente, com muita roupa para lavar, muito banho para dar, muitas feridas para tratar mas sempre repleta de alegria. Aqui, acorda-se o que se julgou morto para sempre. As melhorias não se vêem na evolução das chagas mas sim nas palavras que aos poucos voltam a sair. O Peter, de Taiwan, e a Donna, da Irlanda, entram com um corpo nos braços. Correm para o sítio dos banhos. Pedem-me que me ocupe dele. Eles vão buscar outro que têm no carro. O Peter, a Donna e outros voluntários percorrem todos os dias as ruas de Calcutá afastando cartões e lixo à procura dos que já não sabem porque vivem.

 

 

Nas minhas mãos tenho um corpo que não reage, de olhar perdido, sem gota de vontade no seu sangue. Enquanto lhe corto o cabelo com uma lâmina de barbear, pergunto ao Peter onde o encontraram. "Escondido na erva entre os carris da Estação de Howrah. Como é costume.". Vou esfregando o que sobra de pele entre as escaras. Na cabeça vê-se o crânio alvo exposto. Nos bordos, larvas de moscas fogem aflitas da desinfecção. "Devem ter sido as ratazanas que lhe comeram esse bocado. É normal.", diz o Peter num tom de banalidade. Uma Missionária coreana explica-me a sua técnica de caça às larvas desenvolvida ao longo dos anos de experiência em Nirmal Hriday.

 

É tudo gente que tem pernas mas se esqueceu como se anda, que tem boca mas se esqueceu como se fala, que tem lágrimas mas se esqueceu como se chora, que tem coração mas se esqueceu como se ama. Não têm fome, não têm sede. São os pobres dos pobres.

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Mercado de flores

A religião é talvez a parte mais importante da vida dos indianos. Ateísmo é um conceito desconhecido e os poucos que o conseguem compreender crêem-no uma perversão do espírito. Para os indianos é incompreensível que um ser humano não tenha uma religião.

Oitenta e dois por cento da população indiana é Hindu, facto que rege as suas vidas desde que nascem até que morrem, desde o levantar até ao deitar. As pujas começam cedo nos templos. A maior parte dos deuses Hindus aprecia doces mas a verdadeira oferta que se pode fazer a um deus é flores.

Pela madrugada, o primeiro mercado a abrir é o das flores. Este é o mercado de flores por baixo da ponte Howrah, em Calcutá. Vendem-se grinaldas de crisântemos amarelos para condecorar os ídolos, flores de lótus para os pedidos divinos, flores de jasmim para perfumar os templos, pétalas de rosas para atirar às imagens intocáveis dos santuários.

Luís Mieiro,

médico