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Sinais Vitais

Ofensa Corporal Grave



Mulher em Addis Ababa

São sorrisos desenhados. São bocas que nunca se abrirão. Tradição num Mundo de Direitos Humanos. O que sempre foi e que não pode ser traçado de outra forma. O Corno de África é a sede de uma crença lapidar disseminada em células culturais por vários países, Portugal incluído. A mutilação genital feminina é o último segredo das mulheres da Etiópia, da Somália, da Eritreia e do Djibuti.



Jovem mulher cristã, com a cruz tatuada na testa, em Gondar

Os porquês da tradição não têm resposta. Perpetua-se uma ciência que aos olhos da lei é condenável. São práticas caseiras, à porta fechada, nas condições que existirem, realizadas por uma sacerdotisa de experiência feita. É um ritual de mulher para mulheres. Faz-se porque sim. Ao contrário da circuncisão masculina, praticada em quase todo o continente africano para prevenção de doenças e por questões de higiene, a mutilação genital feminina não tem justificação científica. O grito só se segura porque a mutilação é uma etapa para a fertilidade. Aceita-se porque sem ela não se gera vida. É um rito que marca a identidade cultural. Previne a promiscuidade sexual, acreditam. Cristãs, muçulmanas, judias e animistas. É um fenómeno alheio à religião.

Há três tipos culturais de mutilação genital. A mais frequente, e que corresponde a 80% dos casos, é a excisão parcial do clítoris e dos pequenos lábios. Outra forma de mutilar é a chamada circuncisão feminina, em que apenas se faz uma pequena extracção do tecido do clítoris. O terceiro género é o mais impressionante pela técnica rudimentar utilizada. A infibulação, ou excisão completa do clítoris, faz-se juntamente com a dos pequenos e grandes lábios. As suturas são inexistentes. Espinhos secos, ou qualquer outro objecto perfurante, ligam as faces inteiras das coxas durante quarenta dias. Neste leito de carne viva é inserida uma cana, ou um tubo de plástico nos meios mais desenvolvidos, para drenar a urina. Um longo e doloroso processo de cicatrização que é aceite de dentes cerrados.

Em todo o Mundo, crê-se que seis mil mulheres sejam mutiladas todos os dias. Na Etiópia, como em qualquer outro país, não há estatísticas do que se faz em silêncio. No entanto, também aqui 15% destas mulheres morrerão por complicações pós-operatórias.



Mulher idosa em Addis Ababa



É difícil encontrar uma mulher que queira responder às minhas perguntas. Vou até à Associação das Advogadas Etíopes, uma organização de mulheres que também faz da mutilação genital feminina um modo de vida. "Divulgar, divulgar, divulgar", explica-me uma advogada entre nuvens de fumo e cinzas de cigarros. É um crime que se deixa cometer por falta de informação. É uma "Ofensa corporal grave" resultado da elevadíssima iliteracia feminina. Por isso há tanta necessidade de divulgar direitos, de dar a conhecer o que é permitido e o que é ilegal, de arrancar as mãos dos ouvidos que não querem escutar os perigos da tradição improcedente.



Jovem rapariga judia da tribo Felasha. Crê-se que os Felashas sejam uma das 10 tribos de Israel desaparecidas durante os primeiros tempos da Era Cristã



A Etiópia é um país que precisa de Escola, mas não tem quem ensine. Precisa sair da rua, mas não tem para onde ir.

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Injera

A injera é o prato, o alimento e o talher na Etiópia. Tudo se pode colocar em cima dela: carne, peixe, vegetais. A etiqueta etíope, independentemente da origem cristã ou muçulmana, obriga a que só a mão direita leve a comida à boca. A mão esquerda é reservada à higiene pessoal. As refeições são partilhadas por todos os que se sentam à mesa. Todos tiram uma fracção de injera e vão embrulhando os alimentos com esta. Levar comida à boca de outra pessoa é considerado sinal de respeito e máximo afecto. Recusar tal prática é uma ofensa indesculpável.

Para preparar injera basta farinha de vários cereais e água. Esta mistura fermenta durante três dias e é depois cozinhada como um grande crepe.

A Etiópia é um paraíso para os vegetarianos. Dos 365 dias do ano, 280 são dias de abstinência, em que apenas vegetais são admitidos sobre a injera. Obtêm-se os 280 dias somando todas as quartas e sextas-feiras do ano com os 55 dias que tem a Quaresma etíope, os 40 dias do Advento e a infinita lista de dias santos que povoam o calendário amárico (a maior parte dedicados à Santíssima Trindade e 33 por conta da Virgem Maria).

Uma das especialidades vegetarianas mais apreciadas é o Shiro injera, onde sobre a infinita injera se coloca uma espécie de caril de lentilhas com polpa de tomate. Deve-se deixar sempre um pouco de injera na travessa, uma vez que comer tudo o que é oferecido é sinónimo de "convidar a fome".



Luís Mieiro, médico