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Sinais Vitais

Morte no rio Ganges



Balança para pesar a madeira para a pira

 

Uma perna cai da pira e o intocável volta a colocá-la no topo com um profissionalismo de anos. É difícil perceber se o crepitar das chamas vem da carne ou da madeira. Junto a este corpo outros quatro são cremados. Morrer em Varanasi é um passaporte para o paraíso. Ser incinerado junto ao Ganges é o privilégio de nunca mais reincarnar. Se a vida é sofrimento, nunca mais o será. Esta é a cidade escolhida para morrer por muitos dos que só tiveram direito a uma vida de tormento.

 



Piras funerárias no ghat Manikarnika

 

Uma mulher estende um braço dilacerado pela lepra. Pede dinheiro. Não é dinheiro para comer, porque quanto mais depressa a morte a reclamar melhor, mas sim esmola para comprar a lenha onde arderá. Pede feliz porque a perspectiva do fim do padecimento lhe alegra a alma. São necessários oitenta quilogramas de lenha para incinerar um corpo. Dispor a lenha para que quando esta acabar já só restem os ossos carbonizados é uma arte dos intocáveis, os que nasceram para os trabalhos sujos.

 

 

 



Preparação para a pesca

 

Ao lado do ghat, do banco do rio, onde se cremam os cadáveres, recém-mortos fazem fila para a preparação do corpo. Antes de ir para as brasas o corpo tem que ser temperado. A carne é massajada com óleo de sândalo, mel e especiarias. Depois embrulha-se o cadáver num sudário. Branco para os jovens, encarnado para as mulheres e dourado para os homens. Crianças, grávidas e sadhus são atirados directamente ao rio atados a uma pedra para que sejam alimento de peixe. Uma cara idosa assoma a uma janela escura. É um albergue para moribundos e aquela cara contempla sem medo o seu fim.

 

No ghat, uma nova pira acaba de ser feita. A família dá cinco voltas no sentido horário, uma por cada elemento da Natureza, e ateia o fogo libertador. Ninguém chora perdas. Ninguém pode chorar o que nunca teve. As chamas elevam-se e o corpo liberta a água que o fez viver. É o grande churrasco humano e o cheiro a gordura grelhada lembra-nos que somos feitos da mesma carne que qualquer outro animal.

 



Os peregrinos purificam a alma lavando o corpo no Ganges

 

Ao lado, jovens tomam banho, peregrinos lavam os seus pecados na água purificadora. Outros lavam roupa. Outros lavam os dentes. Outros, ainda, bebem extasiados a água da vida. Mais à frente, pescadores preparam a rede para a faina do dia. O rio é sagrado e isso basta. Sessenta mil pessoas acorrem todos os dias a estas águas à procura de uma ligação divina. O Ganges é a linha directa espiritual dos Hindus. Mas a água do Ganges em Varanasi tem mais coliformes fecais que um colector de esgoto de um prédio. Tudo é descartado no rio ao jeito indiano. Indústrias, esgoto, lixo, cadáveres. Quando surgem epidemias nas margens do rio, dizimando por vezes aldeias inteiras, é tudo assuntos dos deuses, castigos e punições pelos pecados colectivos.

 

Alguns grupos ambientalistas lutam há anos pela construção de estações de tratamento de águas residuais e um forno crematório eléctrico em Varanasi mas parece que não será ainda neste século que verão os seus sonhos concretizados. A energia eléctrica na Índia é inconstante e nunca se sabe a que horas terão que acender as velas. Enquanto esperam, mais uma pira se acende para a eternidade.

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Adorar a Grande Mãe

O rio Ganges, ou a Grande Mãe, é sagrado em todo o seu trajecto mas em Varanasi, cidade de Shiva, o deus a destruição do Universo sem o qual não é possível reiniciar um novo ciclo, passa o troço mais sagrado e auspicioso. Tão forte é o seu poder que quem aqui morre liberta-se do ciclo vicioso das reincarnações e alcança finalmente a eternidade.

Varanasi é, portanto, um dos principais locais de peregrinação para um Hindu. Além dos banhos penitenciais, há que fazer a puja e oferecer flores e fogo à Mãe. Todos os fins de tarde os peregrinos cantam hinos de louvor ao rio e lançam as suas ofertas pedindo por si, pela sua família e pelos seus amigos. Os sadhus, ou homens santos, que morrem para a vida para poderem dedicar-se a percorrer os locais sagrados do Hinduísmo, abençoam as ofertas. Os gurus respondem às necessidades humanas cantando darshans colectivos. É um divino mercantilismo que lava todo o tipo de consciências.

Luís Mieiro,

médico