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Expresso

Sinais Vitais

Medicina de rua

Na África sem segurança social, a saúde paga-se na totalidade. Consulta, internamento, alimentação, tratamentos, tudo. Recorrer ao Hospital é a última instância. Os males menores vão-se tratando pelas ruas, onde aprendizes de feiticeiro vendem poções que têm resultado ao longo dos anos. O conhecimento linguístico destes mestres de rua reduz-se a um Swahili técnico que não percebo. Entre duas ou três palavras de inglês acabo por entender o método utilizado.





Farmácia swahili nas ruas de Nairobi

No quadro estão expostas as doenças tratáveis, ordenadas por números. O utente apenas compra a solução para o seu problema. Já fez o seu diagnóstico em casa.





Local de trabalho de um mestre de medicina swahili

Pergunto aleatoriamente o que significa o número 5. Gonorreia. Como se trata? Com um pó amarelo que macroscopicamente me parece enxofre. Posologia? Três vezes ao dia, durante quatro dias. Isso chega? Chega e sobra! Como calculas a dose? Pelo peso. E como é que se toma? Dissolvido em água quente.

Tudo me parece bastante científico, à excepção do pó amarelo.



A lista das doenças tratáveis

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Viver dos rendimentos

Todas as pessoas gostam de preservar a sua cultura mas algumas levam ao extremo esta vontade, apesar de poderem viver noutras condições. Os Masai, desde que conheceram o dinheiro do turismo, tornaram-se sedentários. Exigem dinheiro por qualquer tipo de gravação e vendem visitas guiadas à sua vida privada. Ser Masai tornou-se uma profissão lucrativa. Os fundos recolhidos até poderiam ser utilizados para melhorar uma vida higienicamente inconcebível nos nossos dias. No entanto, toda a moeda poupada tem um destino previsto: investir em gado bovino. Poder-se-ia pensar que se trata de vacas para alimentar mas não, estas vacas só servem para aumentar o agregado familiar. Dez vacas por cada mulher são os preços do mercado. Os Masai do século XXI tornaram-se presépios vivos.

 

 

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Stresse animal





A fuga do rinoceronte branco nas margens do lago Nakuru



"Leopardo" passa de boca em boca. Preparam-se as máquinas fotográficas, acelera-se para que o animal não tenha tempo de mudar de posição estratégica. É um feroz cerco de veículos. A caça que nutre e desenvolve já partiu, receando os gigantes motorizados. De que vale ser camuflado se todos apontam o dedo, se todos gritam "está ali!"? Lamentam-se as vias de extinção, o quão pouco resta de uma espécie que fascina pela evasão. Ninguém lamenta a fome animal. É o pecado capital desta mobilidade argutamente conquistada, um pé-de-cabra moderno. Os museus de História Natural são cemitérios de formol. O presente é feito de movimento, vida e cor.

Hoje fala-se de turismo responsável, de pensar sempre no próximo antes de pensarmos na recordação que queremos dele. São distâncias sem medidas definidas. São escalas pessoais. Amálgama de direitos e deveres. É património destruído em cada nuvem de poeira levantada por um veículo a uma velocidade que faz erguer a cabeça de um leão. É uma fonte incontrolável que não se quer fechar, um gerador que alimenta a economia queniana.

Um leão enfadado muda de sombra. Não há como descansar quando se é montra na sua própria casa. Segue a uma velocidade de indiferença. Um carro acelera e inicia mais uma perseguição fotográfica. Procura o contacto mais próximo, o melhor ângulo, a melhor luz, o melhor contexto. Sai da estrada autorizada, faz o que não é legalmente permitido e, muito menos, ecologicamente admissível. Culpados? O que vai e o que deixa ir. Um motorista de salário feito de gorjetas multilingues e o encanto fácil de quem não leu as regras do jogo à entrada do parque.

Os resultados são visíveis a olho nu. São quilómetros de terra revolvida, toneladas de madeira consumida, centenas de vidas animais que não se alimentam nem reproduzem fugindo atemorizadas de predadores ruidosos de quatro rodas. A poluição humana, que cresce todos os dias, entranha-se na terra e acumula-se. Há um permanente cheiro putrefacto nas margens do lago Nakuru: centenas de flamingos decompõem-se ao ritmo da morte. Esqueletos, penas e carne doente. Tudo perece. Só o plástico resiste às leis da Natureza.





O cerco do Leopardo no Masai Mara: nove contra um

Um rinoceronte branco olha solitário para este campo de batalha. Não o contemplará por muito tempo. Um camião vermelho-vivo investe contra ele. A solução é fugir. Fugir de uma espécie desonesta que vive de troféus.

Convocam-se reuniões em hotéis sofisticados para debater a erosão dos solos, a extinção das espécies e o futuro ecológico. A única medida proposta é aumentar os preços do consumo. Limitar as entradas seria diminuir o débito desta torneira, seria aumentar a corrupção e o tráfico de influências num país em que quem é da tribo reinante tem emprego garantido.





Leão sem descanço no Masai Mara

O Quénia do habitat natural hipoteca-se todos os dias. São animais selvagens em exibição, sem direito a descanso semanal. Bebem a água ácida que a chuva traz e comem o que o fica da passagem do furacão humano. É uma vida sem tréguas, sem lugar para o que deveria ser.





Cadáver de flamingo no lago Nakuru

Luís Mieiro, médico