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Expresso

Sinais Vitais

Criança de Sudder Street



Ruas do bairro de Topsia

 

Uma criança de rua pode ocultar várias vidas. Pode ser uma fonte de rendimento para a família ou um órfão. Na Índia, o mais frequente é ter sido abandonado após o nascimento e ter sobrevivido. O infanticídio feminino não é tabu, todos o assumem e acreditam ser um problema demográfico do presente e do futuro. A verdade é que nem todos os pais de um país sem planeamento familiar se podem permitir ter filhas, dadas as inerentes culturais responsabilidades financeiras. Se por um lado se asfixia na miséria nos bairros de lata de Calcutá por outro a fama sem proveito da cidade atrai um número excessivo de ajuda, por vezes injusto e desajustado. Aqui, os pais não sentem necessidade de sacrificar as suas filhas inocentes. O mais fácil é deixá-las no lixo, numa rua, numa estação de comboios. Sabem que alguém ali a encontrará e lhe proporcionará uma vida que eles não podem de todo sustentar.

 



Crianças à porta de uma de muitas escolas improvisadas em Topsia

 

Pioneiras, como em quase tudo em Calcutá, foram as Missionárias da Caridade. Os outros seguiram-lhes as pegadas. A maior mina de bebes abandonados é o bairro de Topsia. Há sessenta anos, Madre Teresa ia ali vasculhar à procura de carne que respirasse. Com estas crianças criou orfanatos, residências e casas de reabilitação social. Lavou-os e vestiu-os. Deu-lhes de comer e, de barriga cheia, mandou-os para escola porque não há maior pobreza do que a ignorância. A sua preocupação era tirá-los da rua. Dar-lhes um tecto. Protecção. A maior parte teve futuro. Constituíram novas famílias e dão a conhecer aos seus filhos quem os arrancou da rua. Na capela da Casa Mãe das Missionárias há uma estátua em tamanho real de Madre Teresa no seu lugar de sempre. É frequente ver crianças, que nunca a conheceram, entrarem a correr para lhe dar um beijo na testa, pôr a cabeça no seu regaço e voltar a sair correndo como uma criança corre. Já passaram dez anos e Madre Teresa continua viva.

 



Dormindo em Sudder Street

 

A pobreza do sudeste asiático sempre atraiu as redes de pedofilia. É um mercado fácil e barato. O lucro do turismo sexual infantil é suficiente para calar qualquer justiça que também deseja melhor vida. Sudder Street é a rua de Calcutá que mais nos toca no ombro e nos faz olhar para o que não queremos acreditar que exista. Por mais cruel que possa parecer, negar afecto é proteger uma criança de rua. É ensinar-lhe a fugir de quem é demasiado amigo. É fazê-la compreender que ela é a presa mais fácil. Numa cultura que exige que o governo retire toda a terminologia sexual dos manuais escolares, uma criança não sabe distinguir um comportamento normal de um patológico. Por isso vão sendo abusadas.

 



Criança de Sudder Street

 

Madre Teresa costumava dizer que "o passado já foi, o futuro ainda não chegou e, por tal, só nos resta o presente para fazer alguma coisa". Apesar de parecer extemporânea nas suas palavras, preparou inúmeros futuros nas suas acções. Deu segurança a quem não a tinha. Educou e ensinou a educar. Ofereceu objectivos, metas, perspectivas, esperança. Protecção e educação: é este o nada que as Missionárias da Caridade fazem todos os dias pela erradicação da pobreza. Pequenos nadas que fazem toda a diferença.

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Chuvas de monção

Nas regiões entre o equador e os trópicos, as estações do ano dividem-se por percentagem de humidade relativa no ar e não por temperaturas, já que o calor é mais ou menos constante apenas agravando consoante o conteúdo em água. A partir do final de Junho a Índia prepara-se para receber a época das chuvas, a monção húmida. Começa sempre pelo sul da costa oeste e vai subindo até inundar todo o país em Agosto. Por vezes a chuva forte deixa os estados isolados, com todas as suas estradas suficientemente submergidas para serem intransitáveis.

Cinco minutos apenas de chuva transformam as ruas de Calcutá em pequenos charcos que fazem arregaçar as calças. A chuva lava as cidades mas a água onde se mergulha os pés é uma solução de tudo o que se atira para o chão. Talvez por isso a época das chuvas seja conhecida pela época das micoses. Os condutores de riquexós são os que mais lucram nesta altura do ano vendendo travessias ao dobro do preço habitual.

Luís Mieiro,

médico