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Sinais Vitais

Abluções obrigatórias



Entrada principal da Mesquita Al-Azhar

Todos os dias o mundo se torna mais pequeno. As fronteiras deixaram há muito de existir. Longe vão os tempos em que um rio, uma montanha ou um oceano separavam os povos e ajudavam a criar culturas distintas. Bastam alguns minutos num transporte público para compreender quantas línguas se falam à nossa volta, quantos tons de pele se sentam ao nosso lado. Há países que há muito perceberam que não há lugar para uma única forma de pensar, que debaixo do mesmo tecto vivem seres humanos de várias raças e religiões, cada um com a sua identidade. Esses mesmos países criaram bolsas de estudo para que os seus profissionais viajem até destinos remotos para aprenderem exclusivamente a cultura e a forma de pensar dos povos que imigraram para a sua casa. Para eles, trata-se de investimento. Consideram uma mais-valia ter profissionais capacitados para lidar com situações que mais cedo ou mais tarde surgirão, situações que dependem da cultura e não do indivíduo. No entanto, ainda há muitos países que acreditam estar geneticamente aptos para lidar com a novidade.



Fim de tarde no pátio da Mesquita Al-Azhar, Cairo

Sento-me no pátio da mesquita Al-Azhar, no Cairo. É a mais antiga universidade do mundo em funcionamento.

 

Velho que descansa sob os arcos do pátio da Mesquita

Há jovens a memorizar o Corão Sagrado, velhos a repousar sob as arcadas e gente apressada para as abluções antes da oração do fim de tarde. Há um velho sentado do outro lado da coluna onde estou encostado. Olha a vida sem pressa. Recorda-me um doente que observei em Paris, enquanto era estudante Erasmus. Tratava-se de um doente idoso de origem marroquina. Sequelas de AVC. Um dia foi encontrado caído no chão. Tentara levantar-se para proceder à pequena ablução obrigatória antes de cada uma das cinco orações diárias. Não contara com o equilíbrio tolhido.

Há dois tipos de ablução ou purificação. A pequena faz-se antes de todas as orações e consiste em lavar todas as partes do corpo que entram em contacto com o chão durante a prostração, ou seja, a cara, as mãos, antebraços, pés e pernas. A grande ablução corresponde ao banho completo e é exigida no mínimo antes da oração do meio-dia na mesquita à sexta-feira. Hábitos prescritos há séculos pelo Corão Sagrado e que viram ao longe uma Europa de "água vai" e a evolução do perfume francês.

A angústia daquele homem caído no chão não era orar no seu leito. Era orar sem se purificar. Quando o director do serviço tomou conhecimento do problema foi conversar com o doente. Perguntou-lhe o motivo do pranto. Não podia caminhar até à casa de banho para se purificar. "Diga-me, como é que as pessoas se purificam no deserto?". O choro cessou. Na cara mortificada desenhou-se uma alternativa. "Com areia.", respondeu. "E quando não há água?", continuou astutamente o director. "Fazem-se apenas os gestos da lavagem.". Duas perguntas com todas as respostas.



Minaretes da Mesquita Al-Azhar

O dia acaba na mesquita Al-Azhar. Folheio uma tradução do Corão. Na Sura 5 encontro as respostas daquele doente. Esboço um sorriso, um sorriso igual ao que esbocei quando li no seu processo clínico uma indicação acrescentada com a caligrafia do director: "Lavar a cara, mãos, antebraços, pés e pernas cinco vezes ao dia".

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Cairo Copto





Quando S. Marcos chegou ao Egipto para evangelizar os pagãos não sonhava que sete séculos depois a sua comunidade se veria reduzida a uma ilha num oceano islâmico. Em qualquer cidade do Médio Oriente o bairro mais curioso é sempre o Cristão. Os Coptos declaram-se os únicos descendentes dos antigos egípcios, uma vez que os restantes têm origem árabe. Sobreviveram culturalmente aos diferentes domínios árabes fixando-se à sua Igreja.





A arquitectura copta foi assimilando elementos característicos da árabe e resultou numa mescla harmoniosa e única de estilos.





A geometria é valorizada em toda a decoração de pormenor e os arcos são genuínas ogivas árabes. Esta igreja suspensa em pilares e troncos de palmeiras é um dos melhores exemplos do estilo.





Talvez tenham sido os Coptos a levar o Cristianismo para Etiópia, através da Núbia e da Abissínia, mas as evidências perderam-se com o fim das rotas comerciais do Nilo.

Luís Mieiro, médico