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Sinais Vitais

A chuva em África

A chuva em África faz parar. Há países que não têm condições para continuarem a sua vida rotineira com a chuva intensa: são estradas que se transformam em rios e terra que renasce lama funda. A questão da chuva é tão importante que alguns países criaram leis adequadas ao clima. Se o dilúvio ocorrer pela madrugada, ninguém é obrigado a ir trabalhar. No entanto, todos têm trinta minutos de tolerância para comparecer nos seus postos de trabalho após o fim da tempestade. Quando chove durante o dia, a confusão dissipa-se e o silêncio invade o ruído motorizado das grandes cidades da África equatorial.

 

 

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Um país às escuras

O dia equatorial tem doze horas. Doze horas de luz e doze horas de escuridão. Os dias em swahili vivem-se no tempo em que são contados: desde a primeira hora do sol até à sua derradeira décima segunda. O pôr-do-sol marca o fim do dia nas ruas da sempre congestionada Kampala. O pôr-do-sol marca, também, o início do ronco ensurdecedor dos geradores. É uma cidade de sono difícil.





Cascatas Bujagali na nascente do Nilo



Quem sempre viveu no Uganda acusa o desenvolvimento. Longe vai o tempo em que a barragem das cascatas de Owen, na nascente do Nilo, alimentava todo o país. Agora pouca energia eléctrica fornece. É um país de milhões e uma barragem apenas. O desenvolvimento contemporâneo é um desenvolvimento dependente da electricidade: todos querem um contacto global mas não há como alimentar esta fome de comunicação. Assim, as luzes apagam-se sem nos avisar, sem nos dar tempo de acender a candeia de petróleo ou as velas gastas que repousam em cada canto da casa.

Do pouco produzido para as necessidades insatisfeitas, o Uganda ainda exporta electricidade para o vizinho Quénia. Contratos celebrados no tempo em que sobrava energia no prato. São reféns do que nunca imaginaram. 



Ilhas Ssese no Lago Victoria



"A culpa é do lago!", ouço. Muitos afirmam que o Lago Victoria é o responsável pela fraca produção energética. Nos últimos anos o nível do lago desceu o suficiente para diminuir a colheita eléctrica anual. Menos chuva, menos água. Menos água, menos luz. Os ugandeses, quando falam da falta de chuva, olham para o céu. Acusam tudo o que vem de cima: o aquecimento global, os gases dos países que mais poluem e que não querem deixar de viver como vivem para que poluam menos, os fenómenos climatéricos que trazem e levam as nuvens em épocas cada vez mais incertas. No fim da sua ladainha, continuam a olhar para o céu. Não olham para a terra. Não olham para a floresta decepada que envolve o lago. Não se perguntam de onde vem todo o carvão que consomem diariamente. Não sabem como surge todo o combustível caseiro que se amontoa na beira da estrada. É um país a cozinhar a carvão.



A cozinha de Moses



Moses é cozinheiro. Controla melhor a temperatura das brasas que a de um disco eléctrico ou de um bico de gás. "É preciso ter tempo.", ri da minha impaciência pela morosa confecção. O fogo vivo aproxima-o da terra, torna a comida mais humana. Sempre cozinhou assim e, para ele, pouca importância têm as árvores e a falta de chuva no Lago Victoria. Um fogão eléctrico não faz parte dos seus planos de vida.



Cozinha no interior de uma casa nos arredores de Gulu, no norte do Uganda



Vou até uma aldeia na sombra da floresta de acácias do norte do país e peço para entrar numa das casas. É uma casa sem janelas, feita de terra e água como tantas outras. Tudo é escuro. Cinco minutos bastam para que os meus olhos se habituem a este interior enegrecido. As paredes são pretas de tanto fumo acumulado. São anos de uma família a cozinhar a carvão. São anos mergulhados num fumo asfixiante. Asma? Dificuldade respiratória?. "Aqui não há disso.", respondem à minha questão asséptica. Não me atrevo a perguntar quantas crianças já morreram naquela chaminé habitável, até que idade é normal viver quando se respira a falta de electricidade.

Luís Mieiro, médico