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Expresso

Roupa para lavar

Três retretes avariadas e quatro noites em Mykonos

  Pequena (mesmo muito pequena) Veneza

 

Três casas de banho para uma família de cinco pessoas é bom.

 

Duas casas de banho para uma família de cinco pessoas é razoável.

 

Uma casa de banho para uma família de cinco pessoas é um inferno, principalmente na hora de ponta da manhã.

 

Não há sossego. A estadia dentro da casa de banho é dramaticamente encurtada e stressante pois há sempre alguém a bater à porta, a perguntarmo-nos: "Demoras muito? Olha que eu estou aflitinho por ir aí...", ou a protestar: "Despacha-te que eu já estou atrasada!".

 

Como não tenho segredos para vocês, devo confessar-vos que num passado não muito longínquo vivi este terror matinal.

 

Primeiro a sanita da casa de banho de serviço entupiu e eu não liguei muito. Recordo a minha opinião já expressa de que duas casas de banho para uma família de cinco pessoas é razoável.

 

O problema foi quando a oferta de retretes foi drasticamente reduzida a uma unidade, na sequência de um acto impensado do Gonçalo, que no regresso da praia achou que a melhor maneira de tirar a areia das sapatilhas era bater com elas violentamente conta a parte de dentro da sanita, que obviamente rachou e ficou inutilizada para todo o sempre.

 

É nestes momentos de crise que me sinto como o Marquês do Pombal quando deliberou cuidar dos vivos e enterrar os mortos na sequência do Grande Terramoto de 1755.

 

Ao terceiro dia de engarrafamento matinal na única casa de banho disponível, achei que era chegada a hora das grandes decisões e precipitei-me para uma loja de materiais de construção onde adquiri duas belas sanitas produzidas pela Cerâmica de Valadares.

 

A crise não ficou debelada com este gesto largo e decidido, uma vez que era necessário substituir as retretes, uma tarefa delicada que está claramente muito além das minhas competências.

 

Nesta vida é essencial conhecer-nos as nossas limitações, para não nos deixarmos cair no terrível erro de dar uma passada maior que a perna. Por isso assisadamente recorri ao "outsourcing".

Na escolha do prestador de serviços, socorri-me de um desdobrável que a Serviaide mandara enfiar na minha caixa do correio, onde aquela empresa se vangloriava da larga quantidade de especialistas em diferentes artes que tinha em carteira.

 

A coisa correu bem. Foram rápidos e eficientes, apesar de não terem sido exactamente baratos, mas o meu ponto não era o preço mas antes o rápido restabelecimento da normalidade democrática nas minhas casas de banho e a recuperação da harmonia matinal.

 

Dei por encerrada a crise das casas de banho, um dossier que ficou sepultado até ter sido reaberto, alguns meses depois, por um telefonema à hora do jantar.

 

Perguntaram-me se era eu que estava ao telefone. Confirmei, porque não sou de mentiras. Passaram à fase seguinte, em que fui informado de que tinha ganho um segundo prémio de um sorteio que consistia numa semana em Atenas para duas pessoas, viagens, estadia e transfers incluídos.

 

Enquanto eu pensava na melhor maneira de despachar a senhora, que muito provavelmente queria era vender colchões ou "time sharing", ela acrescentou que o primeiro prémio era uma viagem ao Brasil e perguntou se eu tinha guardado o recibo do serviço de assentamento de duas sanitas fornecido pela Serviaide.

 

Este último pormenor fez-me começar a encarar a hipótese do telefonema não ser uma ratoeira impostora e de eu pela primeira vez na vida ter ganho um sorteio. E passei à fase de contra-interrogatório.

 

P. Posso escolher a altura do ano em que vou fazer a viagem?

 

R. Sim, mas... Julho e Agosto estão excluídos e em Setembro só na segunda quinzena. 

 

P. Vivo no Porto. As viagens entre o Porto e Lisboa estão incluídas no prémio?

 

R. Não. O prémio contempla apenas as viagens entre Lisboa e Atenas. O resto corre por sua conta.

 

P. Já estive uma vez em Atenas e não me pareceu que fosse cidade que justificasse uma estadia de sete dias. Poderia alterar o percurso, reduzindo a permanência em Atenas para três noites e incluindo quatro noites numa ilha?   

 

As reticências com que esta sugestão foi recebida, somadas às limitações anteriormente impostas, autenticaram o telefonema. Nesta altura já estava convencido de ser realmente um feliz contemplado.

 

A comida ficou fria, mas após duras negociações consegui quatro noites num hotel em Mykonos, de preço equivalente ao de Atenas, mas ficou bem claro que eu teria de suportar as despesas com o "transfer" para o Pireu e as viagens de barco entre Atenas e Mykonos.

 

São sete as impressões que guardei desta semana na Grécia:

 

1.   Mykonos é seguramente a capital mundial dos gay. Pecará por defeito a minha estimativa de que pelo menos 90% dos turistas jogam no outro time e têm orgulho em evidenciá-lo publicamente, sendo que a esmagadora maioria são homens. Nada contra. Todos diferentes todos iguais. Uma noite, ao jantar, a minha mulher adiou para o hotel uma ida à casa de banho, porque, dizia, tinha medo de não me reencontrar quando voltasse. Aproveito para explicar que se desaparecesse não seria por livre vontade, mas sim violentamente raptado.

 

2.    As praias são porreiras, apesar de exigirem acesso por barco ou camioneta. E é bastante curioso e pouco usual ver homens nus (e com um anel na base da pila) e peludos a brincarem na areia aos rebolões e abraços, acabando o divertimento como croquetes e aos beijos na boca.

 

3.   O clima parece-me grandioso. Estivemos lá em Outubro e não falhamos um dia de praia.

 

4.    A ilha, com a pequena Veneza, as tavernas com esplanadas ao ar livre, os moinhos, as casas brancas nas ruas íngremes, é realmente muito bonita, atractiva e cosmopolita.

 

5.    Petro, o pelicano que é um ícone de Mykonos (bom, este já é o segundo, pois o primeiro morreu há uns anos largos) e anda a passear pela marginal confere cor local mas tem muito mau feitio. Deu-nos uma dolorosa bicada quando tentamos fazer-lhe umas festas.

 

6.    Uma viagem de barco pelo Egeu, no caso entre Mykonos e o Pireu com escalas em diversas ilhas, é absolutamente imperdivel.

 

7.     Os gregos são muito diferentes de nós. Estávamos lá num dia de eleições e ficamos a saber que nesse dia todos os restaurantes e bares estão proibidos de servir bebidas alcoólicas e que o voto é obrigatório. Quem não vota é penalizado com temíveis sanções, como ser inibido de criar uma empresa ou pedir passaporte durante um determinado lapso de tempo.

 

 

PS. Este "post" é o meu contributo para a série As Minhas Férias Inesquecíveis que está a ser publicado na Única (uma bela iniciativa, devo dizer). 

 

 Postal ilustrado de Mykonos