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Roupa para lavar

O Boavista é um clube semi-fedorento

The football players, Rousseau, 46 cm x 61 Guggenheim de Nova Iorque

Tramaram-nos. Confesso que não estava à espera. Passaram a santa época a jogar um futebol pastoso, a 33 rotações por minuto, em câmara lenta, capaz de fazer adormecer o mais "speedado" dos espectadores. Sábado à noite deu-lhes a febre. Acordaram. Lutaram como se tratasse de uma final, como se não houvesse amanhã, como se atrás da esquina daquele jogo estivesse a recta de um título. Eu não estava à espera porque sou um incauto. O Boavista é um clube semi-fedorento.

O Boavista até tem coisas boas. Exemplos? As camisolas são bonitas e o Estádio até nem é feio.

O problema está em que as coisas más dão uma goleada às coisas boas. Bem vistas as coisas, o Boavista não é bem um clube do Porto. É um submarino axadrezado. Uma pavilhão de conveniência - como a bandeira do Panamá.

O Bosvista não é um clube. É uma rotunda. É um biombo atrás do qual se abrigam os benfiquistas e sportinguistas do Porto nos anos (cada vez mais frequentes, por sinal) em que o seu primeiro clube anda pelas ruas da amargura desportiva.

Não sei se já repararam, mas o Benfica e o Sporting jogam em casa no Bessa - estão em maioria em todas as bancadas mesmo na reservada aos sócios.

Ser um segundo clube é uma fatalidade que persegue o Boavista. Valentim Loureiro, o capitão do suave milagre de fazer do Boavista campeão nacional (coma  prestimosa colaboração do engenheiro Fernando Santos) o que queria mesmo era ser presidente do Sporting. Como não o conseguiu, contentou-se com o Bessa. O Boavista não é bem um clube - é uma espécie de prémio de consolação.

Não é o único clube assim. O Belenenses é o seu correspondente em Lisboa. A Académica faz as mesmas vezes para o conjunto do país. Desconfio sempre que alguém me diz que é do Belenenses, do Boavista ou da Académica. Cheira-me a traveca (já agora sabem como no Brasil chamam aos travestis? Paraguaias. Porque tudo quanto é falsificado costuma vir do Paraguai).

Passei parte da manhã de domingo a espremer as meninges, a ver se conseguia lembrar-me de dez boavisteiros. Esforço inútil. Apesar de ter 50 anos de idade e 28 de jornalismo só me consegui lembrar de três:

1. Rui Rio. Percebe-se porque é que é boavisteiro. Ele até é bom homem mas olha-se para a cara dele e vê-se logo que não gosta de futebol;

2. Manuel do Laço. Um ex-emigrante no Canadá que passa os dias a passear no eixo Bom Sucesso-Rotunda da Boavista, com escalas no Convivio, vestido a rigor, todo preto e branco, com laço ao xadrez, chapéu de coco com fita axadrezada, e sapatos brancos e pretos envernizados;

3. Abílio Ferreira, meu distinto colega e amigo que foi certamnete empurrado para o regaço axadrezado pelo seu feitio resmungão mas cuja superior inteligência já o levou a deixar de pagar as quotas.*

No dobrar do século, quando Boavista habitava sempre os dois ou três primeiros lugares, foi campeão, botou figura na Liga dos Campeões e atingiu as meias finais da Taça UEFA, ainda alimentei a secreta esperança que o Bessa deitasse corpo, constituisse familia e se tornasse um clube a sério, com clientela própria e privativa.

Doce engano. Alimentei essa esperança porque sou um incauto (aliás estou com a impressão que já vos confessei isso...). O Boavista não pode tornar-se um clube a sério porque não dispõe de espaço vital (falo em termos de demografia, não de geografia) para isso.

Sabem por que é que o Rui Rio não conseguiu convencer ninguém da bondade do seu projecto de fazer uma linha de metro a percorrer a avenida da Boavista? Porque os estudos foram unânimes em concluir que não mora ali povo em quantidade suficiente para viabilizar uma linha de metro. Ora se não há povo que chegue para viabilizar uma linha de metro não há, por maioria de razão, a massa crítica de povo para viabilizar um clube de futebol.

O Salgueiros (fundado em 1911 por Henrique Medina e uns amigos junto ao candeeiro 1047 da rua da Constituição) tem alma e mergulha as suas raízes no povo pobre de Paranhos. É vermelho, da cor da bandeira republicana, por oposição ao azul e branco da bandeira monáquica usado no equipamento do seu rival FC Porto. O velho Salgueiral foi atirado ao tapete por um presidente sem escrupulos. Mas vai renascer porque tem alma, raízes profundas nos bairros da cidade e sangue a correr-lhe nas veias.

O Leixões também é um clube a sério. Com massa associativa numerosa e apaixonada. Ancorado no coração das gentes de Matosinhos ligadas à faina do mar. Durante largos anos penou nas ligas inferiores, mas agora está prestes a voltar ao lugar a que tem direito, na I Divisão.

O facto dos adeptos do Leixões odiarem histórica e tradicionalmente o meu clube, não lhe chega para retirar uma pinga que seja do respeito que me merece aquele emblema esquisito, com uma raquete de ténis e um pá de criquete cruzadas. Além de que há indicios seguros de que o ódio já pertence ao passado. O sinal mais evidente está no facto do meu amigo Fernando Rocha, vereador da Cultura da Cãmara de Matosinhos, se preparar para acumular um lugar na administração na SAD do Leixões com uma cadeira no Conselho Superior do FC Porto.

Já não consigo escrever o mesmo sobre o Boavista que não é um clube a sério, mas antes uma espécie de consolação. Ainda para mais treinado peloa patético Jaime Pacheco, que anunciou ainda não saber se fica ou se vai, que tem um convite (mas não diz de quem), mas que pode ficar, apesar do Boavista não ser obrigado a mantê-lo. Também não se pode esperar mais de um tipo que, na opinião abalizada de Mourinho, só tem um neurónio e, que diz que perdeu um jogo porque estava muito calor, e que qualificou como uma "faca de dois legumes" (presume-se que queria dizer uma "faca de dois gumes") um argumento aduzido por um jornalista numa conferência de imprensa. 

O Pacheco, valha-nos Deus, o Pacheco. O homem até foi um belisimo jogador! Mas quem manda a ti sapateiro tocar rabecão? Como poderia ter futuro como condutor de homens um tipo que quando era jogador achava imensa piada ao acto de satisfazer as suas necessidades fisiológicas de carácter sólido quando estava no jacuzzi - emprestando assim uma dimensão literal à limpeza de balneário levada a cabo por Artur Jorge?



* Ontem à noite ao jantar (cherne grelhado com arroz de ameijoas, no Miguel), no intervalo do Benfica-Sporting submeti os meus amigos (Serrão, Juca, Manuel Queiroz, Mário Rui e Costa Lima) a uma tempestade cerebral para apurar mais nomes de boavisteiros e consegui mais quatro para a lista: Arnaldo Saraiva (professor universitário), Jorge Costa (ex-secretário de Estado), António Reis (actor do Seiva Trupe) e José Lello (ex-ministro)