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Expresso

Roupa para lavar

Duas norueguesas com enormes seios e um encontro com Deus no aeroporto Liberty, em Newark

Não joguei em Las Vegas porque recebi um sinal divino nesse sentido quando desembarquei em território norte-americano, por volta das duas da tarde (hora de Nova Iorque) de domingo, dia 11 de Fevereiro.

Presumo que sabem, senão ficam a saber, que a cerimónia da verificação dos passaportes nos Estados Unidos é das coisas mais chatas, demoradas e humilhantes a que um viajante pode ser submetido.

Como se já não bastasse termos sido obrigados a preencher aquele questionário idiota na tira de papel verde do Department of Homeland Security, em que temos de jurar que nunca estivemos envolvidos em actividades de espionagem, sabotagem, terrorismo ou genocídio, nem metidos, entre 1933 e 1945, nas perseguições movidas pela Alemanha nazi ou seus aliados e, ainda, garantir por fim que não queremos entrar nos Estados Unidos para "perpretar actividades criminosas ou imorais".

Um antigo colega meu do Expresso que não tinha sido avisado do protocolo, respondeu mal quando lhe perguntaram qual era o motivo da visita. O desgraçado ousou responder que ia em trabalho. Perguntaram-lhe então pelo visto de trabalho, que ele obviamente não tinha. Foi logo encarcerado numa sala e repatriado no voo seguinte da TAP. Chorou como um desalmado durante o tempo em que esteve preso. Quando voltou teve a lata de descrever no jornal esta sua triste desventura. A última vez que soube dele integrava o "staff" de um ministério do Governo Sócrates...

Os agentes da US Costums and Border Protection são rudes e mal educados com toda a gente (dou-lhes o desconto de terem sido treinados e instruídos para adoptarem essa atitude), excepção feita às duas jovem norueguesas que estavam à minha frente na fila, possuidoras de um "look" ultra saudável e tão bem apetrechadas que estou certo que nunca lhes passará pela cabeça submeterem-se a operação plástica para aumentarem as mamas.   

Há uma maneira simples e infalível de apurar qual é a fila mais rápida. É sempre aquela em que eu não estou.

Quando cheguei ao controlo do passaportes em Newark julguei que o meu azar tradicional tinha acabado. Descobri que uma das seis filas em actividade tinha consideravelmente menos gente que as outras. Quase metade. Esgueirei-me muito sorrateiro para ela, convencido que desta vez não seria o último a passar na alfândega. Doce engano.

Entretanto chegou outro voo, abriram mais postos de controlo, moveram para lá ordeiramente pasasgeiros das filas maiores e, quando tal, dei por mim a ser o único passageiro à espera de entrar em território dos Estados Unidos, atrás das duas noruguesas com grandes seios que confraternizavam animadamente com o tipo do seu posto e o do posto ao lado, que me tinha impedido de ir para lá quando ficou livre (preferiu ir ajudar o colega do lado a desalfandegar as beldades nórdicas).

Depois disto, o que é que estavam à espera?! Que eu fosse para Las Vegas jogar poker?



Na alfândega de Newark, Deus aconselhou-me, de forma clara e inequivoca, a manter-me longe do pano verde.

Como o prometido é devido, início hoje um breve diário da minha última viagem aos Estados Unidos. Para não eternizar o folhetim, vou tentar um dois dias em um, todos os dias.

 

DOMINGO, 11 FEVEREIRO

Um passageiro nervoso com fato de treino cor de merda

Não tenho qualquer dúvida em eleger o lugar junto ao corredor como o melhor na turística de um avião. Sempre que faço o "check in" nunca me esqueço de pedir um "aisle seat".

As vantagens da coxia são inúmeras. Para começar, uma pessoa levanta-se sempre que lhe apetecer, sem ter de incomodar ninguém. E para continuar, pode usar (com algum cuidado, é certo, para não fazer nódoas negras nas pernas das hospedeiras) o espaço aéreo do corredor.

Não havendo corredores, peço um lugar à janela. Desfruta-se da paisagem, pelo menos na aterragem e descolagem.- durante o resto da viagem o mais certo é ser sempre a mesma monotonia, mar ou nuvens. O "window seat" tem sobre os outros a pequena vantagem de permitir encostar a cabeça ao avião, o que é útil se a opção for dormir e ainda confere algum poder descricionário e estratégico sobre a janela.

O pior de todos é o lugar do meio. Estar entalado entre dois desconhecidos (muitas das vezes excessivamente espaçosos) cujos cotovelos invadem, sem qualquer cerimónia, os braços do nosso assento é um inferno, um verdadeiro bingo negativo.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem devia proibir as companhais aéreas de comercializarem os "middle seats". É um tortura viajar sentado no lugar do meio, que se for vago é bastante útil para os passageiros da coxia e janela acomodarem jornais, esferográficas, livros, camisolas, cadernos de apontamentos, enfim, o que lhes apetecer.

Há sempre uma excepção a todas as teorias e a minha teoria sobre as vantagens e desvantagens dos diferentes assentos no avião não é excepção. Tem, por isso, uma excepção.

A excepção dá pelo nome de "emergency row". Qualquer lugar, mesmo o do meio, numa fila de emergência é melhor que qualquer outra assento na classe turística. Porquê? Por causa do extraordinário espaço disponível para as pernas dos passageiros bafejados com esses lugares.

A vida está má para toda a gente e as companhias aéreas regulares, para fazerem face à concorrência feroz da "low cost", optaram por poupar no espaço (aumentando as filas, e consequentemente o número dos lugares, à custa do espaço vital consagrado a cada passageiro) e no serviço (a distribuição de jornais na turística já é uma saudade e as bebidas alcoólicas nos voos da Continental, mesmo nos intercontinentais, custam quatro euros ou cinco dólares cada uma).

O resultado final é que os passageiros são encaixotados num espaço ainda mais reduzido que a solitária do Tarrafal e viajam com as pernas encolhidas tal qual como se estivessem sentados na sanita de um T0.

Passei as oito horas que durou o voo CO 65 de Lisboa para o Newark Liberty Airport confortavelmente instalado no 16A, o lugar de janela de uma "emergency row". Confesso que devo o facto de ter atravessado o Atlântico Norte com as pernas esticadas a uma cunha providencial e bem sucedida.

O braço do protector das minhas pernas não foi suficientemente longo para se estender ao voo C0 1468 entre Newark e Las Vegas, onde me foi atribuido um lugar de corredor (35C) na fila imediatamente atrás à de emergência. O avião ia cheio, sem um único lugar vago. Neste caso, funcionou a sorte.

No lugar exactamente à frente do meu estava sentado um passageiro trajado com um fato de treino castanho, obviamente caro e ululantemente feio, que estava nervoso. Nos preparativos para a partida, foi pelo menos três vezes buscar ou depositar coisas na bagagem de mão que tinha arrumado na bagageira. E no momento exacto antes de partir, após uma misteriosa chamada telefónica, mesmo antes daquele momento mágico em que a hospedeira anuncia que as portas estão "in armed", o nervoso passageiro do fato de treino cor de merda pegou na mala de computador e no trolley Samsonite (da mesma cor e material) e basou do avião, ainda estou para saber porquê.

Eu nem queria acreditar. Quando passou por mim a aeromoça (era parecida com qualquer uma das Supremes e a farda azul escura da Continental assentava-lhe bem), agarrei-lhe delicadamente o braço e perguntei-lhe se o assento da frente estava livre. Ela abençoou o pedido subjacente à minha pergunta com um rápdo e seco "move on". E assim as minhas pernas (não tenho aspecto de jogador da NBA mas ainda assim meço 1m82) estiveram em liberdade durante as quase seis horas que durou o voo até ao McCarran Airport, em Las Vegas, Nevada.

 

2ª FEIRA, 12 FEVEREIRO

A geografia da Strip e uma acertada política de transportes

A Strip em todo o seu esplendor. No primeiro plano vê-se a Esfingie, do Luxor, onde o hotel-casino onde estive hospedado. Um pouco mais adiante está a Estátua da Liberdade e o Empire State Building, do New York, New York. Mais ao fundo, do lado direito, a falsa Torre Eiffel do Paris

A primeira coisa que faço quando desembarco numa cidade que não conheço é estudar o mapa e a rede de transportes públicos. Como não sou rico, nem ganhei a lotaria, nem tenho crédito a habitação no BES, não me posso dar ao luxo de fazer as deslocações de táxi. Além de que faz péssimo ao meu coração estar a obervar o trabalho do taxímetro.

A geografia de Las Vegas é muito fácil.  A coluna vertebral é uma extensa avenida, a Las Vegas Boulevard, que em parte importante da sua secção sul é bordada por hoteis-casinos de ambos os lados. A essa porção, delimitada a sul pelo Mandalay Bay e a norte pelo Stratosphere, chama-se a Strip, que tem uma extensão aproximada de oito quilómetros. A Las Vegas Blv segue para a norte até à Downtown, que tem um ar encatadoramente decadente, onde estão os primeiros casinos. A Fremont Street, uma rua coberta e que é animada diariamente à noite por espectáculos de luz e som, é o coração da baixa. Há portanto duas zonas de interesse em Vegas. A Strip e a baixa, também conhecida por Glitter Gulch.

Há três meios de transporte público (além do táxi):

a) O monorail, que circula num trajecto mais ou menos paralelo à Strip. A sua estação mais a sul é junto ao MGM Grand. A sul acaba o seu percurso numa estação a seguir ao Las Vegas Hilton, a uma "walking distance" do Stratosphere. Tem a vantagem de ser rápido e as desvantagens de ser caro (cinco dólares a viagem) e ter um percurso reduzido;

b) O Deuce, um autocarro de dois andares que percorre a toda a Los Angeles Boulevard nos dois sentidos, ligando a Baixa até ao hotel mais a sul (o Mandalay Bay). O autocarro funciona numa base 24/7 (ou seja 24 horas por dia nos sete dias da semana) e tem uma frequência óptima: passa com um intervalo entre sete a 12 minutos. Uma viagem custa dois dólares, mas um passe de 24 horas (contadas a partir da aquisição) custa cinco dólares;

d) O Strip Trolley, um simpático autocarro antigo, com bancos em madeira, que faz cinco percursos turísticos: o South Loop (ainda mais a sul do Mandalay, um trajecto apenas interessante se o objectivo for fazer compras nos "outlet"), o Strip Loop, o East Loop (que vai até ao um bocado periférico Hard Rock Café), o Strip Loop (Mandalay-Stratosphere) e o Downtown Loop. A viagem custa dois dólares, o passe diário fica por 6.50 USD. E o motorista tem poderes para negociar consigo passes com duraçao supeior. Eu comprei um de quatro dias por 12 dólares.

A minha opção inicial pelo Strip Trolley não foi a melhor. Os motoristas são divertidos, os trajectos são adequados mas muito demorados (os oito km da Strip demoram quase duas horas a ser vencidos devido às múltiplas paragens e às brincadeiras dos motoristas), as paragens ficam em locais um pouco laterais, e a frequência é desasatrosa - cheguei a estar mais de meia hora à espera de um.

A boa opção para conhecer Las Vegas é usar o Deuce.