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Expresso

Roupa para lavar

Da importância fulcral do pepino na sanduíche de Verão

 

 

Devemos ao Conde de Sandwich uma das mais geniais descobertas da Humanidade desde a invenção da roda.

 

O que emociona na concepção da sanduíche – um marco histórico no desenvolvimento da Humanidade, que não tenho qualquer rebuço em colocar a par das descobertas da energia eléctrica e da aspirina C efervescente – é a sua imensa simplicidade e flexibilidade.

 

O conceito básico da sanduíche é simples: duas fatias de pão com alguma coisa metida no meio.

 

O conceito básico da sanduíche é lato: a nossa imaginação é o limite para o que se coloca entre as duas fatias de pão.

 

O conceito básico da sanduíche é flexível, conforme convém a estes tempos modernos, férteis em novas novidades e vertiginosas mudanças de vidas e de costumes.

 

O carácter eminentemente flexível do conceito de sanduíche foi muito bem apreendido pelo Tino de Rãs no refrão de um das canções que, mais tarde ou mais cedo, o imortalizarão: "Pão com manteiga é bom. Com fiambre ainda é melhor". Tem razão.

 

A sanduíche teve ainda ao condão de enriquecer o nosso vocabulário com o verbo ensanduichar, essencial para descrever algumas situações de aperto nas nossas vidas *.

 

A sanduíche triunfou em todo o Mundo. Mesmo num país como Portugal onde há uns 30/40 anos o almoço sentado à mesa, composto de sopa e dois pratos, era uma refeição sagrada.

 

Quando foi lançada a cadeia Casa das Sandes, as cassandras catastrofistas do costume vaticinaram-lhe uma rápida falência, argumentando que nenhum português no seu perfeito juízo se conformaria a almoçar uma sanduíche.

 

Estou farto de ver esses velhos do Restelo (ou dos Marretas, se preferirem, por serem mais actuais) a deliciarem-se com a sanduíche alsaciana em pão chapata no Pans & Company do Arrábida Shopping.

 

A derrota do almoço de duas horas, de faca e garfo, regado a vinho ou a cerveja, às mãos da meia hora que demora a mastigar o menu de sandes de atum e cola light média na Casa das Sandes, foi o primeiro passo no sentido da aproximação da nossa produtividade dos padrões médios da União Europeia.

 

O sucesso instantâneo da sanduíche favoreceu e embarateceu imenso as férias de Verão na praia.

 

Estou convencido que a minha margem de erro é mais estreita que as da sondagem da Euroexpansão se estimar que 90,73% dos portugueses se contentam com sanduíches ao almoço quando estão a banhos no Algarve.

 

Dentro desta imensa maioria (há que considerar 7,45% dos inquiridos se arrumam no cobarde gaveta dos NS/NR), há uma cisão entre os adeptos do consumo da sanduíche na praia e o que preferem come-las em casa ou na esplanada.

 

Eu não sou favorável à deglutição da sanduíche na praia, por duas ordens de razão. Primo, parece-me que comida e areia são incompatíveis. Secondo, comer na praia é sinónimo de estar a assar ao sol como um peru na pior hora do dia, precisamente a hora do almoço.

 

Mas esta não é a questão essencial. O nuclear desta questão é a matéria prima usada na confecção da sanduíche.

 

Se não quer acabar como o velho Elvis, arrumado numa gaveta da morgue transformado em 127 quilos de carnes frias, deve a todo o custo evitar os ingredientes (manteiga de amendoim, banana esmagada, geleia e bacon) da sanduíche preferida dele e seguir os meus conselhos.

 

Pão

Sou absolutamente contra o facilitismo do recurso ao Bimbo e Panrico. Nesta altura em que os supermercados oferecem nas suas prateleiras os pães mais escuros de centeio e mistura já fatiados, não há qualquer desculpa para se ser bimbo.

 

Gordura

Claro que é preciso adicionar um bocadinho de gordura. Mas a minha sugestão é sermos a um tempo inventivos e politicamente correctos, substituindo o tradicional dilema manteiga ou maionese por um fio de azeite aplicado em ambas as faces de dentro da sanduíche.

 

Queijo e fiambre

São dois ingredientes clássicos e os artífices do enorme sucesso da Tosta Mista. Não é por acaso que o fiambre da perna e queijo fatiados são os campeões de venda absolutos nos supermercados, durante o Verão. Use-os mas não abuse e encare seriamente hipóteses alternativas como paio, presunto e fiambre de frango ou de peito de peru fumado.

 

Ovo

Fica sempre bem. A questão é a forma de o cozinhar. A receita tradicional da sanduíche pede ovo estrelado. Eu torço o nariz ao ovo estrelado por duas razões: é pernicioso para a saúde e obriga a mais trabalho. Detesto lavar sertãs. O ovo cozido é simples (pode cozer-se uma dúzia logo à chegada e armazená-los no frigorifico) e não consome muita louça.

 

Tomate    

Uma ou duas fatias de tomate são, no meu entender, obrigatórias. Eu opto pelo tomate chucha ou em rama, cujas fatias resultam mais macias que as do tomate regular, mas não faço questão.

 

Alface

Não sou fã, mas não posso deixar de considerar que a alface contribui seriamente para a harmonia cromática da uma sanduíche, em especial na combinação com o vermelho do tomate. Além de que sempre que como alface recordo o homónimo e genial escritor, que este ano se transferiu para o repouso nas grandes pradarias.

 

Pepino

Ora aqui está o busílis da questão. A pedra de toque. Duas ou três fatias fininhas de pepino conferem um toque único de classe a uma sanduíche. Devemos estar eternamente gratos aos ingleses por terem tido a genial ideia de incluírem o pepino no lote de ingredientes para a confecção de sanduíches. Eles valorizam tanto o "cucumber" que chegam a fazer sanduíches varietais. Ou seja, da mesma maneira que há vinhos de uma só casta (Syrah, Chardonnay, Merlot, etc) eles fazem deliciosas sanduíches de pepino. Mais nada! Apesar de haver quem se queixe que o pepino atrasa a digestão, não a tenho a menor dúvida em proclamá-lo como o ingrediente fulcral e decisivo na confecção de uma sanduíche de qualidade.   

 

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* As mentes mais porcas estarão agora pensar: cá está ele a meter a sua colherada de badalhoquice referindo-se ao(s) elemento(s) do meio de um comboinho. Pois fiquem a saber que não foi essa a intenção (e sim, a intenção conta!).