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Expresso

Roupa para lavar

A sorte que eu tive em não ter sido esmagado pelo helicóptero verde do MoMa

 

A tragédia rondou o quarto 916 do Days Inn, um hotel barato na 94th St com a Broadway. Relato das primeiras horas numa Nova Iorque gélida e coberta de neve. Onde se conta com bastante cópia de pormenores (exagerada mesmo!) como logrei sobreviver a um aquecedor assassino que assobiava e borbulhava ao mesmo tempo, acordando vivo e por isso habilitado a passar a 6ª feira com a cabeça toda enfiada num gorro preto que comprei por cinco dólares numa loja de Times Square.

Uma manhã vivida debaixo de terra, em Brooklyn, no New York City Transit Museum. E duas sandes de pastrami (uma, boa mas cara, no Katz, outra a puxar para o fracote mas barata, num Subway da Broadway, no Upper West Side) a porem entre parentesis o resto do dia.

Voltei ao sobreviver ao fim da tarde quando entrei no MoMa sem que o helicóptero verde suspenso do tecto se tivesse despenhado em cima de mim. O helicóptero nunca caiu mas, nunca se sabe, com o quepode acontecer com o Bin Laden aí a solta. Há sempre uma primeira vez para tudo. Antes do 9/11 (11 de Setembro é a tradução portuguesa de nine eleven) ninguém imaginou que terroristas iam desviar aviões comerciais e atirá-los contra as Twins.

Superado mais este obstáculo, pude enfim dirigir-me ao 4º andar do museu e estacionar em frente à "Flag", de Jasper Johns (na foto). 



5ª FEIRA 15 FEVEREIRO

Como sobrevivi a um aquecedor homicida que assobia e borbulhava

 

O tenebroso aspecto do aquecedor assassino

A viagem de Las Vegas até Nova Iorque até nem correu mal. Durou menos uma hora do no trajecto de Oeste para Este. Cinco e horas e meia à ida e quatro horas e meia no regresso. Não consegui lugar na "emergency row". O avião estava cheio e por isso também não arranjei um lugar no corredor.

Por pouco nem à janela ia. A menina do "check in" da Continental olhou-me com aquele ar "oh, see, how lucky you are!" e anunciou que eu tinha sido bafejado com o último "window seat". A partir de agora só os hediondos "midlle seats"

O lugar à janela deu-me para ter uma ideia aproximada da paisagem  do Grand Canyon, pois o céu estava limpo. mas não demorou muito a começar a dormir. Passei a maior parte das quatro horas e meia que durou o voo nos braços de Morfeu (expressão simpática e semi-culta que uso para contornar a mais que provável eventualidade de ter ressonado).

 Acordei com o frio que passava pelas frinchas da janela para o meu braço e pescoço. Temi o pior. Felizmente tratou-se de um frio inconsequente.

Como de costume, revelei-me excessivamente previdente ao trazer os bolsos cheios com a New Yorker (edição especial de aniversário) e um livro do Grisham. A chegada foi menos venturosa do que a viagem. O voo CO 1069  até chegou mais ou menos dentro da hora,. O problema é que o horário era mau.

Não é bom chegar de noite a uma cidade, principalmente se se trata de uma cidade onde não temos casa - o que, para mim, é o caso de Nova Iorque. A minha mala demorou uma eternidade até aparecer, devido ao que os altifalantes qualificaram como "jam".

Estava tudo convocado para o tapete 6 do Aeroporto Internacional Liberty de Newark quando de repente  fomos solicitados a transferir-nos para o tapete 2. onde a seca apenas foi mitigada pela emoção do último periodo do jogo da NBA entre os Lakers e os Clevand Cavaliers que passava num ecrã e estou em crer foi ganho pelos Cavs (estava a torcer por eles). Quando a Samsonite resolveu aparecer faltava menos de um minuto para acabar e eles estavam com seis pontos de vantagem.

O balcão de Ground Transportation do Terminal C estava fechado. Como não havia ninguém para me explicar se aquela hora (1h30 a.m. locais, mais três horas que Las Vegas, menos cinco que Lisboa) havia uma alternativa ao táxi , arremeti contra a neve e o frio e apanhei um táxi. 51 dólares pela viagem, mais oito pelas portagens, mais cinco de gorjeta. Não foi bom.

O Days Inn, da 94 th St com a Broadway, onde passei quatro noites (preço 339,46 euros, taxas incluidas, reservado pela Internet no Hotel-and-Discounts.com) já conheceu melhores dias. O ano passado, por exemplo, quando eu o Rui Zink estivemos aqui hospedados num "stop over" no regresso de Atlanta, o hotel apresentou-se muito mais acolhedor. Este ano está em obras. Ora não é preciso ser um Einstein para perceber que não é bom estar hospedado num hotel em obras.

O átrio está meio desfeito. A alcatifa tem pior aspecto e o ar ainda mais gasto do que as matronas do Roma, de Fellini. O elevador é tão espaçoso como a dispensa de uma apartamento de sétima categoria.

Chegado ao 9º andar, o caminho para o quarto 916 não está assinalado. O número do quarto está escrito à mão, a marcador vermelho. O comando da televisão não funcionava. E pareceu-me que o quarto cheirava a gás, o que é preocupante porque devido a uma má formação congénita sou meio surdo do nariz (uma das narinas não funciona) pelo que um cheiro tem de ser mesmo intenso para eu o sentir..  

Há um aparelhómetro barulhento ligado à parede que me pareceu ser um aquecedor a gás com uma óbvia fuga. Temi morrer gaseado durante o sono.  Desliguei o truque e ele calou-se. Comecei a morrer de frio, o que confirmava que o aparelho com aspecto homicida existia (também) para aquecer. Voltei a ligá-lo e regressou um barulho estranhíssimo. O truque assobia e borbulha ao mesmo tempo. É infernal. Aterrador, mesmo.

 Acabei por me habituar e adormeci. Acordei no dia seguinte, por volta das 9h20. Vivo. O que era muito bom sinal, pois, como toda a gente sabe, os mortos nunca acordam.



6ª FEIRA 16 FEVEREIRO

O romper da bela aurora e o esgotado Starbucks da rua 93

24 dólares bem gastos no Metrocard para sete dias

Ao acordar sou sempre mais optimista do que à noite. Há uma canção, penso que dos Trovante (ou sera da Brigada Victor Jara?), que fala do "romper da bela aurora". Eu estou plenamente de acordo com a visão sorridente e optimista subjacente a esta frase.

Estou convicto de que não partilho o quarto 916 do Days Inn com ratos ou baratas ou qualquer outro tipo de animais clandestinos que, como são ininputáveis, não contribuem para o pagamento da diária.

Satisfeito por ser um sobrevivente, decidi apenas apresentar queixa na recepção da inutilidade do "remote control" (prontamente reequipado com pilhas novas). Estava perfeitamente resignado a passar as três noites seguidas num são e alegre convívio com o aquecedor barulhento, mas não assassino. Fui para o frio.

A neve é muito bonita nos filmes e vista ao longe. Nas ruas das cidades é uma verdadeira imundicie que só nos atrapalha a vida.

A primeira contrariedade do dia surgiu logo ali ao dobrar da esquina. O Starbucks da rua 93, onde eu ia tomar o pequeno almoço, estava esgotado, com as mesas todas ocupadas. E era ali que eu pensava  instalar-me calmamente a planear o dia. Tinha de arranjar um plano B.

Contrariado, meti-me no metro. Linhas 1, 2 ou 3 (vermelhas), estação da 96 th St, com uma entrada equidistante uns 50 metros do Starbucks lotado (nesta estadia nunca cheguei a conseguir arranjar lá uma mesa). Comecei logo a meter-me em despesas. 24 USD pelo seven days Metrocard. Eu só is estar quatro mas mesmo assim compensava. O Metrocard diário custa sete USD. E a viagem individual fica a dois USD. Eu fiz muito mais que uma dúzia de 12 viagens nesta estadia. Fiz para aí umas 30, fazendo as contas por alto. Foi bom negócio.

Para os primeiros preparos fui até Times Square. O frio é tanto que me decidi a comprar um gorro. Não foi a primeira vez que tomei esta decisão.

Em Janeiro do ano passado, em Varsóvia, quando os 20 graus negativos não me impediram de ir passear (às vezes arrependo-me das opções que tomo; o frio era tanto que entrava pelor baixo nas calças e ia directamente aos tomatinhos que ficaram enregelados, mas, sosseguem, não se registaram danos irreversiveis no material) mas obrigaram-me a comprar um barrete vermelho a dizer Poslka. Parecia o Kumba Iala, mas a puxar um pouco mais para o ridículo pois quando regressei dei-o ao meu filho João (que tem apenas seis anos) e servia-lhe perfeitamente.

Comprei por cinco dólares um gorro, preto, discreto, grande e quentinho (e sem dizeres do estilo "I love NY" com aquele coraçãozinho piroso a substituir o verbo). Outro bom investimento, já que conservo ambas as orelhas.

Dei uma vista de olhos na maior loja da Toys ' r ' Us do Mundo (voltarei cá no último dia para comprar alguns produtos de merchandising do Sponge Bob para levar para o João). Também entrei na mega-store da Virgin. Os americanos estão a reagir melhor que os europeus à quebra irreversível da indústria discográfica. A maior parte dos CD estão a dez dólares, ou seja sete euros. 

Depois fui ao Information Center da Time Sq, onde decidi que iria passar o resto da manhã no New York Transit Museum que fica numa estação desactivada, em Brooklyn.

 

Entrar no Transit Museum sem pagar os cinco dólares é que "no way". O cavalheiro da bilheteira não quis saber do facto de eu ser jornalista e estar habilitado a documentar esse estado através da civilizada e discreta exibição de um cartão que grita PRESS assim mesmo, a letras maiusculas (vá lá que não se armou em esperto e se pôs a pressionar o cartão com o dedo). Entrar sem pagar só com "clearence" das Relações Públicas.

Valeu os cinco dólares. Para além de ter as diferentes gerações de carruagens usadas desde que o metro de Nova Iorque foi inaugurado no dealbar do século XX, documentada através de seis mil objectos, pequenso textos, filmes e fotografias a grande epopeia da construção do maior metro do Mundo (660 milhas de linhas, 496 estações, 17 tuneis debaixo de água) e de como ele foi o vector estruturante do crescimento e expansão da grande metrópole.

O almoço, muito tardio, foi no Katz na esquina da Houston Street com a Ludlow. A sandes de pastrami continua fabulosa. É um privilégio estar no mesmo sítio onde a Meg Ryan simulou aquele fantástico orgasmo. A sandes e uma Katz Ale ficaram por 20,20 USD. Não é de borla. o Katz anda a meter a unha.

Como o frio favorece a cultura passei o resto da tarde no MoMa. Nas sextas à tarde, entre as quatro e as oito, a entrada é livre, pelo que não tive de recorrer ao uso do cartão de imprensa. Um segundo Não no mesmo dia deixar-me-ia traumatizado. Consagrei a maior parte do meu tempo aos americanos do século XX, em particular ao Edward Hopper, Jackson Pollock e Jasper Johns.

Tentei, sem sucesso, beber uma cerveja no Old Mc Sorleys, na East Village. Era sexta feira, início de noite, não havia uma só cadeira livre e o caminho para o balcão estava mais atulhado que o metro em hora de ponta. Desisti. Estacionei num dos dois Starbucks (café grande, 2.20 USD) de Astor Place a planear o dia seguinte.

Por volta das nove e meia da noite recolhi à rua 94. Antes de ir fazer companhia ao aquecedor barulhento, mas afinal pacífico, do "room" 916, comi uma sandes de pastrami (a segunda do dia, e consideravelmente pior que a primeira) no Subway e bebi uma Diet Coke - tudo por oito dólares -, enquanto engordurava as páginas da New Yorker ao ler um magnifico artigo (muito critico, completamente de esquerda) sobre a série de televisão 24.

  • New York Transit Museum

    Esquina da Boerum Place com a Schermerhorn Street

    Brooklyn Heights

    Metro :  2, 3, 4 e 5 para Borough Hall

    3ª a 6ª, 10h00-16h00

    Sábado e domingo: 12h00-17h00