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Expresso

Roupa para lavar

A minha opinião sobre o estranho caso das melancias cúbicas

 

 

Quando o calor aperta e a sede desperta, comer uns pedaços de melancia fresquinha pode saber tão bem como aquele primeiro gole numa cerveja estupidamente gelada.

 

Desde já um ponto prévio. Em minha casa, as fruteiras acomodam carregadores de telemóvel, lápis, elásticos,correspondência por abrir (ou até mesmo já aberta), borrachas, "post it" amarelos de formatos variados, tesouras, etc. Agora fruta é que não. A fruta guardo-a sempre no frigorífico. Gosto de a comer arrefecida. É uma das minhas idiosincrasias.

 

A melancia é provavelmente o mais bonito fruto do Mundo. Acho uma pedrada patriótica aquela combinação entre o verde manchado (ou mesmo o verde profundo, não manchado) da casca com o esplendoroso vermelho do interior.

 

Se eu estivesse ligado à moda, não hesitaria. Desenhava uma colecção de roupa Primavera/Verão usando e abusando dos verdes e do vermelho melancia.

 

Além de ser quase tão bonita à vista como um Cezanne (e ainda mais bonita que os auto-retratos dele), a melancia é óptima na boca. Sou doido pela sua textura. Chego a achar erótica a maneira como os bocados desta fruta se desfazem em água na nossa boca.

 

Podem argumentar os detractores da melancia (de certeza que os há) que ela não sabe a nada. Concedo que o sabor não é um dos pontos fortes da melancia. Mas, caramba, não se pode ter tudo.

 

Para mim já basta a melancia ser extraordinariamente bonita, barata, matar a sede e ter uma boca fabulosa (neste particular está nos antípodas do diospiro).

 

Há quem corte a melancia em fatias. Eu consumo-a em cubos. Desosso-a toda, acomodo os cubos numa taça enorme e meto-a logo no frigorífico. Para o vermelho não escurecer e manter o paladar (pode não ser muito intenso mas tem paladar, sim senhor) deve ser consumida nas 24 horas seguintes. O que em minha casa não constitui problema. Os meus filhos são ainda mais fanáticos pela melancia.

 

Uma questão polémica. As pevides pretas. A mim, elas não me incomodam rigorosamente nada. Não sou daquelas pessoas que com o auxílio de o bico da faca se dedicam a extrair metodicamente as pevides pretas.

 

A experiência de toda uma vida de comedor de melancia permite-me garantir-vos que as terríveis pevides pretas entram por um lado (a boca) e saem pelo outro (mais a sul), não havendo o mínimo perigo de estabelecerem raízes no interior do nosso organismo.

 

Acho encantador o formato gordo e desajeitado da melancia, que me faz logo lembrar os personagens de Botero. Sei que os maníacos dos japoneses conseguiram produzir melancias cúbicas. A ideia deles é aproveitar melhor o espaço no interior do frigorífico.

 

Reconheço que não é uma empresa fácil acomodar uma melancia no frigorífico. Mas, caramba, não era preciso inventar uma melancia cúbica. Basta pegar numa faca e transformar uma melancia em cubos!

 

Quando da conquista do espaço, americanos e soviéticos arranjaram soluções diferentes para o problema das esferográficas e canetas normais não funcionarem num ambiente sem gravidade.

 

Os americanos inventaram uma caneta que funciona no espaço (quando estive no supermercado da NASA em Houston comprei uma, pela graçola).

 

Os soviéticos passaram e equipar os seus cosmonautas com lápis.

 

No estranho caso das melancias cúbicas eu opto pela simplicidade soviética, enquanto os japoneses seguem o caminho mais complicado, tal como os americanos na questão das esferográficas espaciais.

 

Claro que os americanos têm a desculpa cultural e histórica do seu continente ter sido descoberto por acaso pelo desgraçado do Cristóvão Colombo, que pretendia chegar à Índia pelo caminho obviamente mais longo.