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Expresso

Roupa para lavar

A maldição da nota de 500 euros

 

 

A caixeira Laura Soares, do Ecomarché de Budens, pôs termo, hoje, às 16h31, à maldição da minha nota de 500 euros. O acontecimento ficou registado num talão de caixa.

 

A maldição durava desde que há 17 dias respondi "Tanto faz" a um amigo quando ele me perguntava se eu preferia ser reembolsado em cheque ou em dinheiro de uma despesa que fiz em seu beneficio usando o meu cartão de crédito.

 

Olhando para atrás, tenho de reconhecer que fui incauto. Eu estava na posse de indícios suficientes do antagonismo latente entre mim as notas de 500 euros.

 

Há quatro Natais, tive uma ideia que me pareceu engraçada e que, como não podia deixar de ser, acabou mal. Tramo-me sempre que me tento ser engraçado.

 

O desditoso Eureka deu-se quando estava a confeccionar a lista de presentes de Natal e irreflectidamente decidi dar de prenda a uma pessoa de que gosto muito uma nota de 500 euros metida dentro de um envelope bonito e acompanhada de um cartão com palavras simpáticas, sugerindo que podia usar o dinheiro para tirar a carta de condução.

 

Não foi fácil comprar a nota de 500 euros. Tive de a encomendar com antecedência no balcão do meu banco, onde fui informado que não é normal terem notas desse montante no cofre, o que me faz pensar que a profissão de ladrão de banco não tem muito futuro neste mundo materialista em que tudo (dinheiro, acções, músicas...) se está a desmaterializar.

 

Na consoada levei uma desanda maior que a Torre dos Clérigos, que assentava (a desanda, não a Torre dos Clérigos) em duas linhas complementares de argumentação, escoradas nas seguintes questões retóricas:

 

a) Estaria eu a insinuar que estava farto de ser motorista e por issoqueria ao fim da força que ela tirasse a carta:

 

 b) Não saberia eu que é muito rude e indelicado oferecer dinheiro cru?

 

A maldição da nota de 500 euros proporcionou-me esta grande humilhação doméstica, há quase cinco anos, e uma série de pequenas humilhações públicas este Verão, em diferentes partes do país.

 

A minha tournée de humilhações começou em Arcozelo, Vila Nova de Gaia, quando tentei pagar com a nota de 500 umas obras no valor de 364.30 euros na minha carrinha Fiat Marea (mudança de óleo, kit de distribuição, substituição de correias variadas e outras coisas do género).

 

Quando exibi a nota de 500, o Amtónio Santos olhou-me com o ar de quem acaba de descobrir que eu uso a profissão de jornalista apenas como disfarce para uma actividade clandestina e ilegal de tráfico de droga e/ou de órgãos humanos. Passei um cheque.

 

A humilhação seguinte foi na área de serviço da Repsol, em Antuã, A1. Enchi o depósito com 59,52 litros e considerei que o montante (79,70 euros) justificava a tentativa de me livrar na nota de 500.

 

Voltei a falhar. A cara da menina da caixa abriu-se num sorriso maroto enquanto apontava para um letreiro manuscrito em que se avisa a clientela que não são aceites notas de 500 ou 200 euros.

 

Tenho a certeza absoluta que ficou a pensar que eu sou o tipo ao lado do Bibi do Benfica na lista dos dez maiores fugitivos do Fisco, elaborada pelo Paulo Macedo.  

 

A terceira desta série ambulatória de humilhações ocorreu em Paço de Arcos, quando me predispus a usar a maldita nota para pagar os 455 euros de aluguer do apartamento em Santa Eulália onde passei uma semana de férias.

 

"É falsa?", foi a resposta que obtive quando mostrei a nota. Disse não com a cara, mas apesar disso ela voltou à minha carteira. Alegou o meu interlocutor que não tinha 45 euros de troco para me dar por isso que era preferível eu pagar com cheque.

  

Esta via sacra terminou hoje à tarde no Ecomarché de Budens. Confesso que não tinha muito fé. O carrinho estava a abarrotar com leite, água, azeite, cereais, conservas de atum, tomate, pepino, maçãs, uvas, meloa, iogurtes, massa, pão, queijo, fiambre, presunto, cerveja, Coca Cola, vinho, papel higiénico, guardanapos, carvão e fósforos. Mas o montante final não era arrasador: 67.56 euros.

 

A medo perguntei: "Tem troco de 500?". Nem queria a acreditar quando a Laura Soares pegou calmamente na nota e me deu de troco uma nota de 100, seis de 50, e o resto em notas e moedas que tratamos por tu.

 

Impressionou-me a serenidade com que ela lidou com a situação, manuseando a nota como se fizesse isso todos os dias, dispensando-a de qualquer tipo de exames. A calma dela contrastava com o aceleração do meu ritmo cardíaco induzido por esta operação que pôs termo a 17 dias de maldição.

 

Em jeito de segundo moral desta história, fica como elemento de reflexão para todo o povo da lavandaria o facto de ficar mais barato encher um carrinho de compras do que o depósito do carro. Mas isso já são outros quinhentos.