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A saída do casulo

Oitenta dos cem jornais que constituem o top do melhor da imprensa dos EUA têm blogues de jornalistas. Em 63 desses casos, os leitores podem comentar os textos dos autores.

 

Os números são fáceis de confirmar, basta contar os sites e os respectivos blogues. Foi o que fizeram os responsáveis pelo blogue "The Bivings Report" (em www.bivingsreport.com), um observatório de imprensa composto por vários especialistas. Embora o estudo seja mais vasto, a parte que é para aqui chamada é exactamente esta.

 

Não é tanto o facto de 80 em cem jornais de referência terem blogues nos seus sites – embora isso sejam sempre boas notícias. Por baixo da crosta desta estatística está uma outra notícia, uma bem melhor: Jornalistas de 80 jornais de topo, num total de cem, têm blogues. Escrevem entradas com frequência nesses espaços. Sendo que em 63 jornais essas entradas são submetidas aos comentários dos leitores. Uma a uma. "Day in, day out", como dizem os norte-americanos. Para ser mais prático: ficam lá, à mercê dos leitores todos os dias, para sempre. Mesmo que sejam retirados das zonas mais destacadas, ficam bem visíveis – e acessíveis – nas listas de arquivos.

 

Mas afinal o que tanto escrevem os homens e mulheres da imprensa nesses blogues que o jornal onde trabalham lhes dão? Tudo. Tudo o que se espera que um jornalista profissional do século XXI escreva. Análise, notas de reportagem, pistas para ajudar os leitores a descodificar as notícias. Alguns até com a vida pessoal salpicam os seus espaços. Exemplos deste último? Cá vai: "Soube ontem que tinha um cancro, não posso deixar de partilhar esta notícia com quem me lê". Mais feliz? Também há: "A Julian nasceu há três horas. Tem 2,9 kg e estamos todos bem".

 

E o que ganham os jornais com isto? Tudo. Ganham proximidade com o leitor. Dão ao jornalista a possibilidade de se soltar da estafadíssima postura distante, imagem de marca para fazer crer que se pode produzir uma notícia imparcial. Mostram que uma Redacção de um jornal é mais do que um casulo. Sabe comunicar com liberdade.

 

Os jornalistas ganham o quê? "Mais trabalho", dirão os cépticos. "Mais liberdade", pensarão os que nasceram para a coisa.

 

Finalmente, a derradeira pergunta. E as pessoas, o público em geral? O que ganha em comentar os textos? Figurar no site de grande jornais. Chega-lhes. São lidos como nunca seriam fora da Internet. O filósofo alemão Norbert Bolz, numa entrevista ao "Der Spiegel" publicada na última edição do "Courrier Internacional" (que traz a Web 2.0 como tema de capa), diz que este tipo de particpação, "no plano psicológico e social, é uma grande libertação".

 

Liberdade, liberdade, liberdade, portanto. Dizer que a Internet está a matar os jornais é uma das maiores palermices na moda. Ela está a revitalizá-los. A obrigá-los a reaproximarem-se das pessoas, de quem aliás nunca se deviam ter afastado. É o empurrão definitivo para fora do casulo. O problema resume-se então à troca do físico pelo digital? E quando se troca o jornal de parede pelo de papel na banca, morre alguma coisa? Voltemos então a esse tempo, basta trocar os tijolos pelo plasma, que também veio para ficar.

 

Miguel Martins

Editor de Multimédia do EXPRESSO