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Expresso

O País dos Prodígios

Contra um mundo asséptico

Já se viu que a lei do tabaco provocou abundante polémica e já se viu que o Governo insiste em fazer de cada um de nós, senão um Adónis, pelo menos um saudável atleta. A redução do IVA nos ginásios também o confirma.

Por entre a polémica e os exageros de ambos os lados, perde-se a ideia que deveria presidir a qualquer lei: a da liberdade. E se é certo que a liberdade dos que não fumam (meu caso) deve estar defendida, impedindo os fumadores de lhes atirarem o fumo para cima, não menos verdade é que a liberdade dos que fumam não pode ser posta em causa da forma que o está a ser. Porque é arriscada a ideia de que o principal mal poluente (ou mesmo cancerígeno) da sociedade está no tabaco. Da mesma forma que um prazer (para quem fuma) foi agora quase proibido, outros podem seguir-se: a bebida, as comidas gordas, os salgados, os fritos. E acresce que todos sabemos como estes conhecimentos científicos estão sujeitos a flutuações (vejam-se certas gorduras, que já foram consideradas como más e hoje sabe-se que, parte delas, são necessárias, como o chamado 'colesterol bom').

Em contrapartida, outros males como os provenientes dos escapes dos automóveis, das chaminés de fábricas, das lareiras acesas, do ruído das avenidas movimentadas, do ensurdecedor barulho dos aviões em certas zonas, das radiações de aparelhos, não só são combatidos como, por vezes, são vistos como inevitáveis ou promovidos.

A ideia de que o prazer é um erro é, em si mesmo, a ideia perigosa que no passado levou radicais a perseguir a diferença.

Foi ideia de muitas igrejas e de inúmeros homens que se tinham na conta de grandes beneméritos da humanidade.

Ora, o que é impossível é um mundo asséptico, no qual os riscos não existam e a morte esteja arredada.

Ora, o que se sabe, é que todas as ideias totalitárias começaram por ser apresentadas como purificadoras.

Só isto, para mim, me faz ter o mais profundo respeito pelos fumadores e não me importar que eles puxem do cigarro ao pé de mim.

Há outros, aqueles pequenos espíritos intolerantes, que são em si mesmo, por vezes, um perigo bem maior para a sociedade do que o mero fumo de um cigarro.