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Expresso

Jornalismo de Sarjeta

As notas de Sr. Presidente

O exemplo vem de França: os ministros passaram a ter o seu trabalho traduzido em números. "Todos os objectivos políticos são quantificáveis", pontificou o Presidente Nicolas Sarkozy. Se não cumprem, são despedidos com justa causa. É a cultura de resultados aplicada à política. E se a moda pega?

Estão a imaginar a ministra Isabel Pires de Lima a ser julgada pelo "evolução de frequência dos museus nos dias em que eles são gratuitos" ou pela percentagem de mercado dos filmes portugueses? Ou o seu colega Mariano Gago pela "taxa de abandono no primeiro ano da Universidade"? Ou que Luís Amado seja responsabilizado pela ausência dos seus colegas nos conselhos de ministros em Bruxelas? E, em caso de resultados negativos, serem justificadamente "remodelados"?

Não? Pois bem, há já quem seja. Em França, já é assim desde o Verão passado. E as notas vão chegar em breve. Segundo comenta a imprensa francesa, provavelmente já nas primeiras semanas de Março, na altura das eleições municipais.

Quando foi eleito, o novo Presidente francês - essa inesgotável fonte de surpresas da política europeia - prometeu aos seus ministros que lhes seriam consignados "objectivos que permitissem avaliar o seu trabalho". E cumpriu.

Com a ajuda de uma consultora privada - outra inovação de monta -, os objectivos políticos foram quantificados e passados a números. Quer dizer, critérios políticos que visam respeitar a missão e compromissos assumidos por Sarkozy, não simplesmente indicadores orçamentais ou administrativos. Os critérios de avaliação dos ministros são 30 e as respectivas folhas de avaliação foram entregues durante o Verão para que cada um soubesse com o que podia contar. Só faltam mesmo as notas.

Os 33 ministros e secretários de Estado franceses passaram assim a ser sujeitos à chamada "cultura de resultados" - e porque não? No último conselho de ministros de 2007, Sarkozy, relata a imprensa gaulesa, lembrou-lhes sem falsas delicadezas que eles devem estar "contentes por estar no Governo", porque "há quem sonhe ser ministro e não o será nunca". E rematou, simpático: "E vocês não o serão sempre, por isso estejam felizes por o ser!". Será que Sócrates disse alguma coisa parecida no Conselho de ministros extraordinário do último domingo? Acho que não.

Alguns já sabem que não vão passar no teste. O "Monde" ironizava com graça que a responsável pela Habitação já se sabe perdida porque não vai conseguir proporcionar o número de habitações sociais nos prazos previstos. O ministro da Imigração e da Identidade Nacional, por sua vez, tem garantido o lugar: vai conseguir expulsar 25 mil ilegais. No seu boletim, constava a equação entre o número de irregulares expulsos e o dos estrangeiros admitidos para efeitos de trabalho.

Sarkozy acha que a cultura de resultados é a melhor maneira de coordenar o trabalho intergovernamental. Até porque, passe a demagogia, esses indicadores, diz ele, são destinados a prestar contas aos franceses.

Sarkozy já aplicou o mesmo método às polícias quando era ministro do Interior e os resultados parece que não foram brilhantes. Para compor as estatísticas, a polícia concentrou-se nos casos mais fáceis e deixou de lado os difíceis. Agora se a moda pega na política...

Luísa Meireles, jornalista