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Flagrante deleite

O Óscar do melhor actor para Jardim

Alberto João Jardim fotografado em 2005, por Luiz Carvalho, 

no final de uma entrevista para a ÚNICA

 

Em 1989 fui à Madeira fotografar Alberto João Jardim.

A primeira foto começou bem: o chefe do governo regional ia inaugurar uns metros de estrada que acabavam em nenhures. Havia uma banda de música à espera, crianças vestidas de domingo, povo real. Alberto João andou uns metros a pé, cortou uma fita e, sem pejo, emborcou directamente da garrafa um espumante de método champagnês.

 

Fiz uma sequência fotográfica sem que ele tivesse tido qualquer complexo em posar naqueles propósitos mesmo sabendo que eu era do Expresso, portanto: um fotógrafo cubano. A foto foi capa da revista do Expresso ainda no tempo do grande formato. Lá dentro havia fotos da realidade social madeirense, imagens de uma Madeira rural e pobre onde o folclore para turista ver se misturava com miséria. O Jorge Van Krieken, que escreveu a reportagem - e de quem Jardim dizia que tinha um nome pornográfico – não desarmava enquanto não encontrasse vestígios bárbaros da governação madeirense. Na altura, era fácil encontrar na Madeira trabalho infantil, pedofília, bairros miseráveis, pobreza mesmo. Mas o Continente também não fugia à regra.

 

Anos depois ainda o fotografei para uma entrevista, que ele acedeu em dar com relutância ao Expresso, depois do trauma que lhe terá deixado aquela reportagem do Krieken.

 

Quando Sampaio visitou a ilha em 1997 numa Presidência Aberta, Jardim mandava-me bocas pelo facto de ser do EXPRESSO,  provocatório mas também divertido, o que para certos jornalistas teria sido uma ingerência intolerável na liberdade de imprensa.

Eu ria e respondia-lhe com sorrisos, enquanto o ia apanhando em poses caricatas.



Chegou a pedir-me para o fotografar ao lado de Sampaio num instante de convivência institucional eterno.

 

Há dois anos voltei para uma  entrevista de vida para a ÚNICA. Ao propor-lhe segui-lo num dia de inaugurações, aceitou de imediato.

Já me conhecia e, talvez pelo facto de eu nunca ter afinado com as suas provocações, permitiu logo uma certa empatia. No final da entrevista, ao saber que gosto de charutos, ofereceu-me um cubano (dos verdadeiros, do Fidel) com uma cinta em que estava gravado o seu nome. Simpático. (Oxalá o Óscar Mascarenhas, que é o controleiro do sindicato, não leia esta crónica !!).

 

No dia seguinte viajei no lugar do morto no seu Mercedes E320.

O motorista acelerava bem, mostrando um perfeito conhecimento das curvas e contracurvas da ilha, num rally que nos levou a lugarejos perdidos, em escarpas como presépios.

 

Durante a viagem falou-me na sua admiração por Fidel e Chavez e da embirração antiga pelo cavaquismo. " O Cavaco sempre se fez rodear por uns tipos pretensiosos e carreiristas. Um dia em S. Bento veio um engravatado ter comigo, apresentou-se dizendo que já tinha sido secretário de estado, que tinha feito um doutoramento no estrangeiro, todo basófias em bicos de pés. Eu disse-lhe: você não tem idade para ser governante! Sabe porquê? Porque com essa idade ainda não deve ter aprendido a beijar uma mulher como deve ser! O tipo desapareceu logo dali".

 

Ao longe, já se avistava uma multidão. A banda arrancou com o fungagá e ele, saindo do carro em passo firme, começa a cumprimentar toda a gente, tratando muitos dos presentes pelo nome próprio. Quando sente o cheiro do povo parece que se transfigura. Passa de um discurso afável e confessional para uma atitude tensa, controlada e certeira.



Trata todos por tu, pergunta por familiares, refere pormenores que mostram estar a par de pequenas coisas do dia- a -dia da comunidade. Aproveita para dizer mal do oposicionista local, gozando-o. Bebe uma cerveja, petisca um pastél de bacalhau, arranca para pregar noutra freguesia.

                                                                                          

"Nunca dou dinheiro a ninguém para esbanjar em tabaco e bebedeira. Esta gente acaba por perceber que assim pode viver melhor". As palavras faziam este sentido e na verdade tudo o que ele inaugurava ia ter um reflexo real na vida real das pessoas. Habitação social, estradas, lotes para novas casas, escolas.

Desenvolvimento. Parece ser a obsessão dele, mesmo que cobre isso caro, com controle na liberdade de expressão, na imprensa local, nos organismos governamentais. É o conformismo subserviente do padrinho mas que emprega milhares. É o populismo em forma de Jardim.

 

A oposição encolhe-se, perde margem de manobra, parece que Jardim tem um ascendente sobre quem o rodeia. A verdade é que a oposição fica às aranhas com a sua descontracção, à vontade, e arrogância natural.

Numa das paredes do Palácio do Governo  um mapa com todas inaugurações previstas até ao dia das eleições mostrava o plano da pólvora para ganhar. Tudo preparado ao pormenor, assessorado por uma equipa eficaz que na sombra não falha nada.

 

O homem que gosta de noitadas confessava-me que era uma "chatice" ter de ir visitar Mota Amaral aos Açores, quando este era seu homónimo. " O Mota Amaral quase não me deixava sair do palácio. Eu saía na mesma. Um dia queria jantar às dez da noite e estava tudo fechado em Ponta Delgada. Comecei a andar pelas ruas e descobri uma tasca, bati à porta, e fiquei lá a petiscar com uma malta divertida da TAP. O Mota Amaral se soubesse!..".

Depois referiu o célebre trocadilho da "Opus Day" e do "Copus Night".

 

Fotografar Alberto João Jardim é estimulante. Um gozo!

Comporta-se frente às câmeras como Mário Soares: nada o inibe e acaba por ficar sempre bem no retrato. Tem outra característica comum ao seu ex-arqui-rival: sente a câmera, e sem a olhar sabe onde está. Como os grandes actores.

Um Óscar para ele, já !...

 

Luiz Carvalho

Coordenador-geral de fotografia do Expresso