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Flagrante deleite

Diane Arbus, fotógrafa suicida

"Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a fotografia. E mais complicado..."- Diane Arbus, fotógrafa





A fotógrafa americana Diane Arbus marcou a história da fotografia contemporânea com as suas fotografias de figuras bizarras, desde os anos cinquenta até meados dos anos sessenta.



Em "Fur", o filme que agora estreou nas salas de cinema, com Nicole Kidman no papel brilhante de Arbus é uma versão livre e delirante da vida e da personalidade da fotógrafa. A mestria do realizador, a capacidade criativa do director de fotografia, a ambiência dos cenários e o talento de Kidman tornam este filme num dos raros casos em que saímos do cinema com o alento de termos partilhado uma já rara fita de autor.



Conheci as fotografias da Diane Arbus pouco tempo depois de me ter obcecado pela obra e pelo significado das fotos de Henri Cartier-Bresson. Já lá vão seguramente mais de 30 anos. Percebi então que o registo de Diane Arbus nada tinha a ver com o do mestre francês, o teórico do "Instante decisivo", bem pelo contrário. Em Arbus prevalecia a pose, o relacionamento directo com os personagens apanhados na rua ou nos seus meios naturais. As fotografias de Arbus deixavam-me uma estranha angústia, uma mescla de ironia e crueldade, de ternura sórdida. Tudo palavras e sentimentos que mal casam entre si.

 Remetiam-me aquelas fotos para um olhar próximo de Fellini, um dos meus realizadores preferidos, mas ao mesmo tempo não tinham a tolerância e o paternalismo do mestre italiano. Nem podiam: ela era uma fotógrafa realista, ele um cineasta neo-realista com todas as diferenças culturais, estréticas e políticas implícitas.



As figuras de Diane Arbus são infelizes e patéticas, desgraçadas, marginais. A técnica fotográfica em Arbus é elementar. Usava uma câmera de película 6x6, geralmente uma Rolleiflex, usada ao nível do umbigo e que enquadrava olhando por um visor colocado no cimo da máquina. Era assim mais discreta, dispensando levar o visor ao olho. O flash enchia de luz o primeiro plano, onde se situavam as personagens que assim ficavam mais recortadas dos fundos. Esta luz de flash permitia olhares limpos, sem sombras, luz directa, crua como o olhar da fotógrafa. A técnica não fugiria muito à usada pelos fotógrafos de casamento, os bons, do tempo da película e do preto e branco muito nítido.



No filme lá estão muitas daquelas figuras bizarras que transformaram a vida pessoal da fotógrafa e a deixaram refém desse mundo estranho, estimulante, terminal, que a fotógrafa abraçou: anões e nudistas de corpos disformes, gigantes em casas de bonecas, famílias jovens de postura estranha com filhos estrábicos, burguesas decadentes, faquires de circo, travestis e outros cromos.

As fotografias de Arbus parecem por vezes o prolongamento de muitas das figuras de Weegee, um fotojornalista de Nova Iorque, famoso nos anos vinte pela coragem e pelo desassombro das suas imagens tomadas à socapa nas ruas da cidade e nos antros da fama.



Diane Arbus começou como fotógrafa de moda, ensinada pelo marido. Mais tarde foi com o maior director de arte de sempre, Alexey Brodovitch, o criador de Harper`s Bazar, e com o fotógrafo Richard Avedon que deu os passos decisivos para uma carreira profissional.

Tornou-se fotojornalista nos anos sessenta. Publicou na Esquire, no New York Times Magazine, na Harper`s Bazaar e no Sunday Times.

Teve duas bolsas Guggenheim (1962 e 1966) que lhe permitiram desenvolver melhor o seu trabalho de autora, mostrado pela primeira vez num museu em 1967 (colectiva New Documents Museum of Modern Art).

O catálogo dessa exposição, que o célebre editor John Szarkowski concebeu em 1972, tornou-se num dos mais influentes livros de fotografia. Desde então, foi reimpresso 12 vezes e vendeu mais de 100 mil cópias.

A exposição do Museu de Arte Moderna viajou por todo o país e foi vista por 7 milhões de pessoas. No mesmo ano, Arbus tornou-se a primeira fotógrafa americana a ser escolhida para a Bienal de Veneza.

Um ano antes, em 1971, tomou barbitúricos e cortou os pulsos. Como se os personagens das suas fotografias, na sua expressão sórdida e pungente, tivessem sido a premonição do seu final infeliz.

Luiz Carvalho, Coordenador-geral de fotografia do Expresso

A fotógrafa Diane Arbus a fotografar nos anos cinquenta, Nicole Kidman em "Fur" e um retrato da autora de um travesti.