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Flagrante deleite

Cinco anos que mudaram a minha vida

 

André, o meu filho mais velho, olha o David no seu primeiro dia de vida.

(foto Luiz Carvalho)




O meu filho mais novo fez esta semana 5 anos. Para mim foram 5 anos que mudaram o Mundo. Isto qualquer pai babado dirá mas para mim não foram só os anos que me trouxeram felicidade inesperada já na idade dos cinquenta,  foram também os anos em que tudo mudou no Mundo e na minha profissão.

 

A fotografia que aqui  dou a ver foi feita com a primeira digital do mercado a preço acessível e de qualidade profissional. Hoje  já ninguém usará essa câmera obsoleta,

uma Canon D30 com um ficheiro de 3 megas do tamanho de um telemóvel popular que tire fotos.

 

Não foi só a tecnologia que mudou no trabalho de um fotojornalista. Foi todo o ambiente de trabalho na redacção e todo o equipamento de reportagem no terreno.



Na redacção desapareceu a câmara escura, a alquimia do laboratório, os caixotes de fotografias. Da parafernália de tinas, liquídos, secadeiras, estufas e até toalhas de banho para limpar provas fotográficas surgiu agora um computador onde recebo mensagens, edito, consulto arquivo, ouço músico, escrevo o meu blogue, edito vídeo...faço tudo com um clique.

 

Na rua, nos últimos 5 anos os computadores portáteis tornaram-se verdadeiras work stations multimédia, com programas de edição vídeo, som e fotografia, com ligações por wireless ou placa 3 G à internet. Do meu portátil posso agora controlar de qualquer lado a edição do jornal, enviar fotos por ftp em alta resolução.

 

As máquinas fotográficas digitais ultrapassaram em muito a qualidade das similares analógicas ao ponto de a LEICA M8 à venda desde a passada semana conseguir fotografias com melhor resolução do que a M7 de película, a mítica máquina que vem dos anos 30.

 

O 11 de Setembro devolveu à internet o protagonismo que lhe começava a faltar depois da "bolha" de 1998. Passou a ser no ciberespaço que cresceram conceitos novos de interacção com os leitores, onde uma comunidade global de milhões convive agora consumindo noticias, fazendo compras, estudando...imaginem o que quiserem,

 

Os fotojornalistas tornaram-se multimédia e a apresentação de fotografias passou a ter uma dimensão espectacular. Basta visitar o site Magnum inmotion para vermos como os maiores ortodoxos da imagem fixa se tornaram nos mais inovadores da cultura multimédia. A agência que nasceu sob a bandeira da fotografia aos fotógrafos, numa espécie de marxismo purista da imagem fixa, é agora a pioneira multimédia no fotojornalismo.

 

A televisão passou a poder ser produzida com meios mais àgeis e menos dispensiosos.

O conceito da equipa de televisão com um cameraman, um redactor e algumas dezenas de quilos de equipamento mudou e, pese embora que em Portugal as televisões insistam nesta forma cara e absurda de produção, um só jornalista de mini-câmera pode fazer reportagens, editá-las no portátil e a enviá-las por ftp. A CNN e a SKY foram pioneiras.

 

Muitos fotojornalistas passaram a andar com uma mini câmera no saco, munida de um microfone profissional.

 

O meu David nasceu na fronteira com um tempo novo. O meu filho mais velho André, 30 anos, cresceu com o meu laboratório fotográfico, a Leica, o preto e branco, os meus filmes em película. Não sei se há aqui um tempo melhor ou pior. Cada tecnologia permite linguagens diferentes e a felicidade não é proporcional às possilidades várias dadas pelas novas tecnologias. ( Veja-se o Simplex de Sócrates na sua penúria ).

Fazer Lisboa - Porto pela Nacional 1 no carocha do meu pai era uma aventura. Hoje pela A1 é uma maçada, é caro, mas vamos depressa.

 

Hoje agarramos menos o tempo, um bem precioso que antes nem dávamos por ele, tal como o ar ou a àgua.



As nossas vidas são outras mas seriam uma maçada sem estas mudanças que fizeram tremer a nossa estabilidade. O nosso conforto.



Muitos ficaram pelo caminho. Assustaram-se e não se quiseram adaptar. Outros respiraram fundo e aceitaram estes desafios até aos limites. E ganharam.

 

Luiz Carvalho

Coordenador-geral de fotografia do Expresso