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Emprego e Carreira

Santos da casa não fazem milagres

Reza a sabedoria popular "santos à porta de casa não fazem milagres". Sem querer correr o risco de generalizar, vem-me à memória uma conversa recente que tive com um amigo de longa data. Ele, um jovem empresário da nossa praça, constituiu a sua empresa vai para cinco anos. Na altura de recrutar colaboradores, rodeou-se dos amigos. A combinação podia ser perfeita já que lhes conhecia o perfil e as competências, mas progressivamente acabou por revelar-se um erro grave face à dificuldade de demarcar bem o território da amizade e o do profissionalismo.   

Há pouco quando me veio à memória este desabafo do meu amigo, questionei mentalmente quantos casos destes conheceria eu. Vários! Não se trata aqui de atribuir culpas ou tirar responsabilidades, até porque há casos e casos, mas a verdade é que muitas vezes a excessiva proximidade entre patrão e empregado não funciona bem. Em alguma fase deste relacionamento, alguém vais esquecer os limites.

Ou é o desinvestimento no trabalho, ou é o excessivo à vontade no que toca à gestão do tempo, ou é da parte do patrão um nível de exigência superior ao que teria com um colaborador normal, ou a simples dificuldade em impor regras e autoridade. Enfim, contratar um amigo ou trabalhar com um pode ser presente amargo se ambas as partes não reconhecerem o seu papel.

Diz o meu amigo que hoje, provavelmente não recrutaria ninguém com base em afectos, embora reconheça que algumas afinidades podem ter um impacto muito positivo no sucesso da empresa. Perguntava-me o "empresário em apuros": como soluciono esta questão? Como é que eu vou impor a minha autoridade sem perder um amigo? Não lhe soube responder. Mas ponderando melhor o assunto, acredito que os destinos de uma empresa estão na mão de quem a chefia. É uma questão de liderança e da forma como esta se exerce. E o problema do meu amigo pode também ser esse, ser afinal amigo demais.

É desejável que exista um ambiente de camaradagem no local de trabalho. Mas como diz o ditado "trabalho é trabalho, conhaque é conhaque". Há metas e objectivos a atingir. Imponha-os e avalie, em equipa, o desempenho de cada elemento. Este será, na minha opinião, um primeiro passo para colocar os elementos que estão "fora da rota" no caminho certo. Pode até ser que o seu colaborador não tenha percebido que não está a gerir bem os afectos e o trabalho. É tarefa do gestor tornar os sinais evidentes e ser claro quanto ao seu descontentamento.

Mas esta conversa aguçou-me a vontade de alargar o tema e de perceber, no terreno, como se delimitam as fronteiras quando se trabalha com amigos. E se a dado momento você tiver mesmo de escolher entre despedir um amigo de longa data, que não está à altura do desafio profissional que lhe foi confiado, e salvaguardar o sucesso do seu negócio? Será que há regras básicas para ter um relacionamento profissional com amigos sem comprometer o trabalho? E como salvar uma empresa onde os colaboradores foram recrutados com o coração e não com a razão?

Cátia Mateus