Siga-nos

Perfil

Expresso

Emprego e Carreira

"O Pavão de hoje é o espanador de amanhã!"

Que a vida dá muitas voltas todos sabemos. Que as voltas nem sempre são para o lado que queremos, também não é novidade. Mas por circunstâncias várias esta deliciosa máxima da minha avó – "o pavão de hoje é o espanador de amanh㠖 a que dei honras de título neste post, tem ocupado o meu pensamento nos últimos dias. Tudo por causa de um artigo que estou a preparar sobre "marketing pessoal".

 

Tenho vários amigos peritos nestas coisas da imagem. Vários a quem o lema "eu sou o meu melhor produto" cai que nem uma luva. A maioria, confesso, trabalha na área da assessoria e ganha a vida a vender imagens de outros. Mas, curiosamente, a verdadeira lição que recebi neste campo veio do mais insuspeito dos meus amigos: o padre João.

 

Era suposto que estas questões da imagem, do marketing e do mercado de trabalho lhe passassem ao lado, mas desenganem-se os que julgam que os padres não conhecem os benefícios do marketing. Este é dos que acreditam que a imagem pessoal vale quase tanto como um currículo e que é possível abrir a porta de muitos empregos aplicando as estratégias do marketing tradicional às pessoas. Mas o terreno é melindroso.

 

É um facto que saber vender-se enquanto produto profissional às suas chefias e colegas, é um requisito fundamental para garantir o sucesso num mercado laboral onde os conhecimentos técnicos são apenas a base da carreira e o carácter distintivo entre dois profissionais igualmente brilhantes está na sua atitude e capacidade comunicativas. Eu não tinha dúvidas disto, mas perdi a fala quando no meio desta conversa de amigos, o João remata o assunto com: "No marketing, o produto não existe. O que o consumidor está a comprar é o benefício que ele dá. O mesmo acontece nas empresas. O que os líderes compram quando recrutam alguém é o benefício que essa pessoa pode trazer à empresa. E por isso é que eu digo que ganha quem conseguir vender essa imagem de imprescindível e brilhante ao chefe e aos colegas". Ele é padre!

 

Segundo o João, em Portugal viveu-se durante anos a era do que a minha avó chamaria de "pavões", profissionais que se empenharam de tal forma neste marketing e levaram as suas regras a tal ponto que perderam a humildade na abordadem ao mercado e no relacionamento com os colegas. De facto, ocorrem-me vários "pavões" assim de relance.

 

Para testar esta teoria do João de que as organizações recrutam, preferencialmente, "pavões", liguei para um empresário que conheço há vários anos. Depois da tradicional gargalhada face à minha pergunta – "Miguel, você recrutaria um profissional "pavão"? – lá me respondeu com um "Cátia, já não estamos no tempo disso! Antes os empresários viam essa postura como sinal de determinação e espírito vencedor, hoje valoriza-se um marketing pessoal mais sóbrio onde a eficiência se mostra em resultados. São esses que eu recruto".

 

Prontamente contra-ataquei com nova pergunta: "Quer dizer que os 'pavões' estão a virar espanadores?". Prontamente ele respondeu com nova gargalhada, seguida de: "sim Cátia, servem basicamente para limpar o pó!". Para o Miguel, como para muitos empresários, o segredo para uma abordagem de sucesso ao mercado laboral reside na sobriedade e na humildade. "Quem é bom, é bom e mostra-o em resultados sem necessidade de publicidade enganosa", argumenta Miguel referindo que "se mal aplicado o marketing pessoal pode ser desatroso para uma carreira, criar um péssimo ambiente de trabalho, influenciar negativamente a produtividade de uma equipa ou comprometer os resultados da empresa".

 

E tem lógica. Muitos "pavões" no mesmo terreno, regra geral, não dá bom resultado. Todos se exibem com orgulho e nenhum produz. E já dizia a minha avó – que não era expert em recursos humanos – "orgulho não é grandeza, é inchaço". 

 

Cátia Mateus, jornalista



Visite aqui o expressoemprego.pt