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Licença para mudar

Sou de balanços. E de metas. Sempre gostei dos finais de ano e dessa paragem obrigatória para avaliar o ano que passa, o que se alcança e o que ficou por fazer, pendurado para o ano que ai vem. Gosto destes balanços. Acho-os positivos e mesmo eu que não sou "lembretes" para nada na vida dou por mim a elaborar pequenos registos mentais das metas que me coloco para 2008. Entre o meu grupo de amigos estes balanços são comuns, regra geral conjuntos e muitas vezes fonte de grandes revelações. Este ano não foi excepção.

A convicção dominante é de que 2008 é um ano de mudança. E para o meu amigo Tiago será! O Tiago é o mais "low profile" dos meus amigos e talvez por isso, o que mais me surpreende pela capacidade de romper com o instituído, virar a vida do avesso e seguir os sonhos. O Tiago tem sempre uma pergunta ou uma observação que me prende e me faz pensar. A deste ano veio em forma de comunicado e pedido de orientação: "A partir de Fevereiro estou de sabática. Meti uma licença para realizar os sonhos e podias ajudar-me a perceber como posso tirar o melhor partido disto profissionalmente..."

O Tiago justificou a sua opção com a desmotivação profissional, a necessidade conhecer outras realidades e, curiosamente, de exercer a sua profissão em cenários mais adversos. Este é, para os especialistas de recursos humanos, um perfil-padrão. A maioria dos profissionais que opta por se afastar do seu quotidiano laboral durante períodos mais ou menos longos, fazem-no por desmotivação laboral, necessidade de valorização profissional ou pessoal.

O curioso é que em Portugal, ao contrário de outros países onde as empresas chegam a premiar o mérito dos seus colaboradores com uma licença sabática remunerada (por reconhecerem o seu valor enquanto fonte de motivação e valorização) - como a empresa de biotecnologia Genentech, considerada pela Fortune como uma das melhores para trabalhar - por cá, a solução não é muito comum. Avessos à mudança e com ideia enraizada de quem o valor de um colaborador se demonstra mais pela sua presença física na empresa do que pelo mérito e qualidade do trabalho produzido, poucos portugueses arriscariam pedir uma licença para experimentarem outra actividade durante algum tempo.

O medo de perder terreno no mercado de trabalho e não encontrar um lugar quando a "aventura" terminar lideram a lista das razões deitam por terra esta opção. Mas há estratégias eficientes para minimizar esta ausência. A primeira é explicar muito bem ao seu administrador as suas motivações, se possível tornando claros os benefícios para a empresa da sua ausência temporária. Por outro lado, não é obrigatório que você deixe de trabalhar e de estar ligado à empresa. Suponha que quer a licença para poder viajar e conhecer outras realidades ou até experimentar um estágio ou uma formação noutro país. Há profissões que lhe permitem trabalhar à distância mantendo sempre a sua ligação à empresa e, simultaneamente, algum rendimento.

Se este não é o caso, não há que perder a esperança. Cada vez mais as empresas portuguesas valorizam no momento do recrutamento a prática de voluntariado ou esta vontade de conhecer e conquistar o mundo que são sinais de empreendedorismo, proactividade e incoformismo. Por isso, se não negligenciar a sua qualificação profissional e se empreender a sua licença com propósitos e objectivos bem definidos, não há como não tirar um bom partido dela em termos profissionais. Você estará a valorizar-se pessoalmente e esse é o melhor benefício que poderá retirar. A questão financeira pode ser rentabilizada com a sua capacidade de materializar no terreno, e na sua actividade profissional, essa experiência.

Em tempos, numa conversa telefónica informal a administradora da Ray Human Capital, Ana Loya, referia-me a importância da rede de contactos numa situação destas. A especialista relembrava que é muito importante não perder o contacto com quem fica, seja a empresa, os amigos ou os contactos profissionais, e acrescentava a utilidade de publicitar a sua opção. Dar a conhecer a experiência que se vai empreender fará com que a curiosidade aumente e gera maiores oportunidades no regresso.

O Tiago é médico. Vai mudar de vida em 2008 e realizar a vontade de exercer a sua medicina em situações de calamidade humanitária. A minha aposta é que a licença que tirou não será suficiente para o tanto que quer conhecer.

Cátia Mateus, jornalista