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Emprego e Carreira

Dores de crescimento

Você recrutaria alguém com um currículo onde constasse um fracasso? Aceitaria como sócio num projecto alguém que já tivesse sido gestor de uma empresa que faliu? E você, colocaria no seu currículo um fracasso profissional? Não é necessário ser grande especialista para arriscar uma resposta. Obviamente "NÃO!". E "não" por várias razões.

"Não!" porque em Portugal ainda impera a ideia de que um erro momentâneo é uma marca para a vida. "Não!" porque a cultura organizacional lusa não aceita que o fracasso possa ter um efeito pedagógico, com contributos positivos para a melhoria dos resultados empresariais, se bem aproveitado. "Não!" porque a "pedagogia do insucesso" não passa de uma miragem e o célebre provérbio "errar é humano" está completamente oco de valor na sociedade portuguesa.

Ocorrem-me, assim num repente, uma série de argumentos que deitam por terra esta ideia de que quem fracassa está "queimado" para o mundo empresarial. Aliás, até me atrevo a desafiar os líderes empresariais a colocarem como exigência de recrutamento a "experiência em lidar com insucesso". Atrevo-me a desafiar um empreendedor a procurar para sócio alguém cujo primeiro negócio tenha falhado. E faço-o por várias razões.

Faço-o porque acredito que não há processo de aprendizagem sem um contacto directo com o fracasso. Não há evolução sem desilusão. O erro/ insucesso é semelhante às "dores de crescimento". É necessário passar por elas para "ser grande". Faço-o porque o sucesso se constrói com escolhas e as escolhas (certas ou erradas) derivam da experiência. É ela que nos confere a capacidade de tomar decisões e só quem já fracassou saberá como evitar esse caminho, hierarquizar e gerir os problemas ou dificuldades e levar os destinos de uma organização/projecto a bom porto.

Curioso é que a grande lição em matéria de fracasso chegou-me através de um engenheiro e não dos habituais "gurus" da Gestão. Recentemente tropecei num livro onde encontrei retratadas todas as minhas teorias acerca da gestão de recursos humanos. Henry Petroski é professor de engenharia na Duke University (EUA) e autor de do livro "Success through Failure". Na sua obra apresenta o fracasso como motor do sucesso e deita por terra todas as ideias dos "gurus" do momento. Para Petroski, o sucesso é sofrido e não existem fórmulas fáceis para alcançá-lo.

O autor, tal como eu, acredita porém que um líder sem experiência de fracasso pode ser o inimigo nº 1 de uma empresa. A sua excessiva autoconfiança e inexperiência/incapacidade de lidar com o erro, podem minar toda uma equipa e comprometer o sucesso de um projecto. O medo de errar e de arriscar tem comprometido em Portugal a criação de muitas empresas e com isso limitado o desenvolvimento de um país cujos níveis de empreendedorismo teimam em continuar abaixo da média europeia. A factura que estamos a pagar por esta mentalidade é astronómica.

Quantos dos seus colaboradores já fracassaram em empregos anteriores? O seu sócio nunca cometeu erros estratégicos? E você, sabe fracassar?

 

Cátia Mateus

Jornalista



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