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Expresso

Ela é carioca

Uma experiência no Ártico

Desapareci por duas semanas. Fui para o Norte. É mais "chic" rumar ao Sul, mas voei para o Norte, a trabalho, numa viagem de jornalistas à Noruega para acompanhar a pesca do bacalhau, mas quem acabou presa à rede fui eu. Quem me dera ter coragem para emigrar e escrever outra história de vida naquelas paragens.

 

Desembarcámos à noite na minúscula ilha de Rost, 200 quilómetros acima do Círculo Polar Ártico. Mal pusemos o pé no chão congelado, o cheiro a peixe invadiu-nos os narizes. Sem malas, que ficaram pelo caminho, seguimos para um hotel surgido da adaptação de antigas casas de pescadores. Toda a ilha vive à volta da pesca.

Acordei com o chamado do mestre, nos barcos que rumavam para alto mar. Da varanda de madeira do hotel percebi a razão do intenso cheiro a peixe. Na planura da ilha, quilómetros eram ocupados por armações de madeira onde estavam penduradas toneladas de bacalhaus frescos a secar ao ar livre. Sem cabeça e pendurados em duplas, amarrados pelos rabos, os peixes pareciam morcegos à espera de levantar voo.

De Rost ficou-me isso: planura, bacalhaus/vampiros e o cheiro a peixe. Solidão e uma natureza agreste e pouco convidativa. Parti sem lastro.

Os últimos dois dias da viagem foram ancorados em Ballstad. Outra ilha, ainda mais ao Norte. Cercada por montanhas, obviamente cobertas de neve, debruçadas sobre o mar. O cenário era outro: grandioso e convidativo. Sedutor.

À procura dos pescadores e da faina do bacalhau, fomos embarcados em lanchas rápidas. Inconsciente, sentei-me logo à frente, como às estátuas dos barcos antigos, oferecendo o meu corpo ao embate do mar.

E o mar bateu forte. Entrou por mim. Apanhámos uma tempestade de neve em alto mar. A pele do rosto esticada sobre os ossos enregelados, o susto na boca, a cada pancada sobre a água escura. À volta só o silêncio. A distância assume nova espessura. Uma experiência a guardar.

Descemos em Skrova para almoçar. Fiquei ali e não me importava de lá estar até agora. Agarrar a F. e o M. e desenhar lá outro enredo. Mais simples. Mais centrado, com menos desperdício de tempo e vontades. O tempo e a distância tornaram-se palpáveis. Friamente sólidos. Reconfortantemente estáveis.

Porque é tão difícil ter coragem para refazer os percursos?

Christiana, jornalista