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Expresso

Ela é carioca

Triste com a boneca na mão e o bolo na boca

Esta semana houve uma notícia económica que gerou imenso impacto: o pai Belmiro e o filho Paulo decidiram abrir os cordões à Bolsa e prometeram pagar mais um euro por cada acção da Portugal Telecom. Depois de um ano a garantir que os 9,50 euros eram a oferta definitiva, perceberam que para ganhar é preciso pagar e subiram a proposta.

A Oferta Pública de Aquisição da Sonaecom sobre a PT foi, contudo, assunto de trabalho. Outras duas notícias chamaram a minha atenção, mas não como jornalista. Primeiro foi a revelação de que uma das propostas da Plataforma Nacional contra a Obesidade é a eliminação dos bolos e bolachas nas pausas de café das reuniões de trabalho nos serviços da administração pública.

Se a moda pega, acabaram os mimosos pastéis de nata, os delicados petits-fours, os sedutores éclairs nos intervalos das reuniões. Confesso os meus pecados: sou louca por doces. Salgados também, mas com os doces tenho um caso sério. Um amor do tipo: quanto mais me bates (engordas), mais gosto de ti. Acho mesmo que já atingi o perigoso estágio de chocólatra.

A criação de uma sociedade absolutamente limpa, politicamente correcta, cumpridora de todas as regras, assusta-me. Ou melhor, enfastia-me. Os desvios podem ser mais interessantes do que as auto-estradas. A ditadura estética e da saúde pode, pelo caminho, assassinar o prazer. É verdade que o equilíbrio atende pelo nome de utopia, mas o desejo do prazer sempre foi um grande incentivo. Sem exageros.

Percebo que a situação nacional é preocupante. Que um em cada dois portugueses tem peso a mais. Que esta é uma doença dos países ricos. Que há gente a morrer de fome em outros cantos do mundo. Que é preciso educar as pessoas a pensarem na sua saúde. Eu sei de isto tudo e concordo. Mas...

Este é o ponto de ligação com a segunda notícia que me chamou a atenção. Um relatório da Unicef que afirma que 19,5% das crianças portuguesas estão tristes com a vida, colocando Portugal entre os cinco países com pior classificação da pesquisa.

O documento debruçou-se justamente sobre os países mais desenvolvidos do mundo e, para além de evidenciar que o bem-estar das crianças não depende directamente da pujança económica, constata que as mais afectadas em Portugal são as raparigas, entre os 11 e os 15 anos. Eu tenho uma, de dois anos.

Pior é que, para compensar a tristeza, estas crianças sonham grande. Mas a realidade é dura e mostra que Portugal tem uma das percentagens mais elevadas de adolescentes entre os 15 e os 19 anos que estão fora das escolas. Estamos mesmo em último lugar no bem-estar educativo dos jovens. Mas somos um dos locais onde mais crianças dizem gostar muito da escola.

Sedentarismo, obesidade infantil, bebés que nascem abaixo do peso recomendado são problemas referidos no relatório. E isso, porque o estudo não abordou as questões relativas à negligência e abuso.

A tristeza infantil não pode e não deve ser afogada em doces. Nem a dos adultos. Mas porque impormos mais regras, mais limites? A educação da capacidade de escolha não é uma decisão mais democrática e saudável?

Christiana, jornalista