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Expresso

Ela é carioca

Os meus gatos da Doris

Eu a conheci quase sem saber: partilhávamos a mesma sedução pelos gatos. Conheci-a, como milhões de pessoas, pelas letras que foi deixando pelo caminho. Nasceu persa, cresceu na Rodésia, nunca acabou a escola secundária, vive em Londres e vai a caminho dos 88 anos. Doris Lessing, voltou a me conquistar quando a vi, sentada no chão, nas escadas da sua casa, com as mãos gordinhas amparando a cabeça, tonta com a notícia de que tinha ganho o Nobel de literatura.

À noite, quando cheguei a casa, fui correndo procurar o livro onde a conheci. Uma colectânea de contos com "As melhores histórias de gatos". A história dela vem quase lá no fim e tem um título pragmático: "Sobretudo gatos". Naquele mesmo serão, o telejornal passou imagens de arquivo de Doris à conversa com uma jornalista e, de um gato, muito gordo e sem cerimónia, a subir pelo sofá escuro da escritora.

Confirmei a impressão de que a sua cumplicidade com os felinos diz muito dela. No tal conto, falava de uma casa onde vivia (será a mesma das imagens?), cercada de muros por todos os lados. Muros de todos os tamanhos e feitios. Como a nossa vida. Doris diz que "há sempre gatos nos muros, nos telhados e nos jardins, vivendo a sua vida complicada e secreta como a vida das crianças da vizinhança que se desenrola segundo regras próprias que os adultos nunca conseguem imaginar nem entender".

Quais serão as regras que regem a cabeça daquela senhora de olhos brilhantes, tatuados com uma perplexidade infantil? Deve mesmo ser especial, para contar uma história como a que eu reli naquela noite. Uma história comezinha, que acaba com um comentário delicioso, que deixo aqui, em homenagem às Doris, que andam por aí, escondidas entre os sacos das compras, os muros, os 80 anos e as letras. Demorou 40 anos, mas que venham mais prémios como estes.

"- O que está mal aqui ­- disse H. - é que ele é velho demais para ela.

- Oh meu Deus - disse S. - vou levar-te para casa. Porque se ficas aqui ainda és tu que fazes amor com a gata.

- Quem me dera - disse H. - Que bichinho delicado, que criatura encantadora, que princesa! É mal empregada num gato, não aguento isto!

No dia seguinte, o Inverno voltou. O jardim ficou molhado e sombrio; a gata cinzenta regressou aos seus modos enfastiados. E o velho rei ficou no muro do jardim, sob a lenta chuva inglesa, vencedor de todos, à espera."

Christiana, jornalista