Siga-nos

Perfil

Expresso

Ela é carioca

O tom de voz certo para uma mulher

Eu confesso: ainda não tenho mais de 40. Mas pretendo ter, apesar das rugas, apesar das cedências físicas e emocionais.Mas hoje não é de emoções que quero falar. Quero falar de jornalismo. E jornalismo para as mulheres com mais de 40 anos.

Não que este seja muito diferente do jornalismo em geral ou do jornalismo para as mulheres com menos de 40. É mais um eco americano.

Num aeroporto, encontrei uma revista que merece o comentário. Chama-se "More" e é dirigida às mulheres com mais de 40. Mas não as trata de forma paternalista. Nem as transforma em lolitas inconsequentes.

As páginas de publicidade equilibram exemplos de modelos bem conservadas com mulheres que já não escondem os efeitos da passagem do tempo.

Na capa da edição de Outubro, aparece exuberante uma quase sessentona (57 anos) Sigourney Weaver. Os artigos falam, em geral, de roupas, maquilhagem, cerveja, cães, emprego, maternidade, viagens, saúde. O ritmo que marca as páginas é "com a experiência vêm a sabedoria" (página 120).

O que mais me marcou, contudo, foi um texto intitulado "A voz da autoridade" (página 94), em que a autora (Jill Abramson) discute a dificuldade de as mulheres com vida pública têm para encontrar o tom certo.

Katie Couric (a pivot que assumiu o telejornal de horário nobre da cadeia CBS), Hillary Clinton, Condoleezza Rice e a própria Jill Abramson (uma das primeiras editoras executivas do "New York Times", que assume no artigo os seus 52 anos e a dificuldade para se impor profissionalmente).

Jill lembra que Couric – no lugar da "voz de Deus", ou melhor, Walter Cronkite - está sob o escrutínio da artilharia pesada dos norte-americanos bem-pensantes. Mas não só sobre a sua forma de conduzir o noticiário...

Também pelo seu corte de cabelo, sobre os seus óculos, sobre se o cenário do telejornal teve de ser redesenhado para mostrar as suas pernas. Sobretudo sobre o ajustamento do seu sorriso, em permanente em equilíbrio entre a doçura e o poder.

Exercer o poder no feminino é um assunto delicado. Adquirir autoridade no feminino já é difícil. Mas exercê-la é ainda mais. O pior é que, na Carolina do Sul, encontrei uma americana com mais de 40 que, apesar da sua formação intelectual (directora de uma escola pública) assumiu: "Ainda é cedo para termos uma mulher na Presidência".

Certo é, segundo Abramson, que as mulheres nas mais influentes posições já perceberam que a sua única hipótese de exercer a sua autoridade é não imitar o estilo masculino de o fazer. É por isso que é tão difícil encontrar o tom certo. Natural e confortável. 

Em resumo: "Quão alto, quão suave? Quão fresco, quão quente? Quão esperto, quão engraçado? Não interessa se a audiência é formada por uma pessoa ou por milhões, as mulheres têm de encontrar a forma certa". Se têm.

Christiana, jornalista