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Expresso

Ela é carioca

O insustentável peso do não-dito

Primeiro, há que se abrir ao mundo, depois, o mais difícil: aprender a fechar-se. A mais subtil das artes é a da escolha.

 

O jornalismo é uma profissão cujo exercício quotidiano deveria ser feito com a mesma perícia que os artistas invocam quando se propõem criar algo novo.

 

Feito o preâmbulo, aqui vai a explicação desta consideração, aparentemente inesperada.

 

Este Verão deparei-me com um pequeno livro – um livrinho, sem qualquer cunho pejorativo, muito pelo contrário, com o carinho das coisas íntimas – que calou fundo nos meus cada vez maiores períodos de quietude.

 

"Silêncio e Comunicação – Ensaio sobre uma retórica do não-dito", de Tito Cardoso e Cunha. Os encontrões com as afirmações do livro são pesados, mas determinantes para quem vive da comunicação.

 

Deixo aqui alguns exemplos:

 

. "Será o silêncio algo de realmente existente ou apenas a falta daquilo que não existe? Em suma, entre o Ser e o Nada, de que lado fica o silêncio?"

 

. "O silêncio só faz sentido relativamente à palavra suspensa, como na psicanálise quando o analisando se cala"

 

. "Nas sociedades, em que impera a 'lonely crowd' torna-se o ruído uma espécie de anestesia da solidão"

 

. "A sobreabundância de informação torna-a ruído, quer dizer, falta de informação"

 

. "O fluxo dos media pretende ser uma constante e perene presentificação do próprio tempo em torno do conceito de actualidade"

 

. "Se o ruído é um fluxo, o silêncio não é mais do que fragmento, o que resta como escassez"

 

. "O esquecimento é também uma forma de silenciamento. Um nome esquecido, por exemplo, é um nome que veio a ser impronunciável"

 

 

Alguém quer dar início ao debate? Porque não discutimos a fundo a noção de silêncio e ruído no nosso universo mediático actual? O que realmente vale a pena silenciar? De que forma exercemos a subtil e brutal arte de escolher?

 

Christiana, jornalista