Siga-nos

Perfil

Expresso

Ela é carioca

O amor maduro

Queria ter maestria para homenagear o amor maduro. Aquele que surge tarde, quando a solidão já se instalou como companheira. Aquele que se renova a cada dia e faz com que 30 anos de casamento pareçam com um namoro curto e ansioso. Aquele rompe com rotinas instaladas, derruba instituições ennferrujadas, assusta. Aquele que ilumina vidas acinzentadas, aquece corredores frios, acalenta tremores que não se calam.

  Quando era criança, achava as cenas de amor físico entre pessoas com mais de 50 anos grotescas e anti-estéticas. Hoje vejo doçura. Ternura. Perdida no meio do Babel há uma cena fugidia de um beijo maduro, com a voz agreste de Chavela Vargas por trás. Dois corpos em desassossego, atrasados na satisfação de algo que não se satisfaz. Num filme sobre as dificuldades de comunicação, é a prova de como dois seres comungam. Em silêncio.

  É fácil enaltecer o amor no vigor da juventude, a explosão da plenitude dos desejos e das capacidades. O primeiro amor, cheio de promessas, recheado de esperança. Corpos perfeitos ansiando a completude. Belos.

   O amor maduro corre o risco do grotesto visual, nada é firme ou forte. Tudo é frágil, receio e susto. Não há tempo para promessas e as saudades são presença constante. Nem que seja do tempo que já não se tem.

  Admiro a coragem do amor maduro. Muitas vezes triste. Com o pretexto do comercial dia dos namorados, lembrei-me do amor maduro. Lembrei-me daqueles que não tem pejo de parecerem ridículos, que têm ousadia para tentar outra vez. Que têm humildade para arriscar. Para se dar ao desconhecido.

  A este propósito, volto a Adélia Prado, a mulher que descobriu a poesia no Outono da vida. Deixou um poema de que nunca me esqueço quando corro o risco de pensar que tudo devia ser bom, belo e perfeito:

  "Eu quero amor feinho.

   Amor feinho não olha um pro outro.

   Uma vez encontrado é igual fé,

   não teologa mais.

   Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo

   e filhos tem os quanto haja.

   Tudo o que não fala, faz.

   Planta beijo de três cores ao redor da casa

   e saudade roxa e branca,

   da comum e da dobrada.

   Amor feinho é bom porque não fica velho.

   Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:

   eu sou homem você é mulher.

   Amor feinho não tem ilusão,

   o que ele tem é esperança:

   eu quero amor feinho".



   Christiana, jornalista