Siga-nos

Perfil

Expresso

Ela é carioca

O aborto do aborto

Eu era para falar de jornalismo puro e duro neste post. Não mudei de opinião, só não será tão puro, mas talvez seja ainda mais duro. Ia falar das fontes, e é delas que acabo por ter de falar.

O artigo sobre o aborto visto pelos homens desta semana que passou na "Única", de autoria do José Pedro Castanheira e da Cristina Bernardo Silva, atravessou-se o meu caminho como se fosse uma pedra.

Antes do mais, tenho que dizer que este é um assunto que me toca muito de perto. Nunca fiz uma interrupção voluntária da grevidez e, durante muito tempo da minha juventude, defendi a primazia dos direitos individuais sobre tudo o resto. A vida passou sobre mim.

Não vou usar este espaço para falar dos meus territórios íntimos nem fazer a defesa de qualquer sentido de voto. Mas no momento de recolhimento que todos os portugueses devem usar para decidir como vão exercer o seu direito de voto, o artigo atravessou-se no meu caminho. Como uma pedra.

Ter um filho não é fácil. Para ninguém. Pai. Mãe. Filho. Abortar um filho também não deve ser fácil. Para ninguém. Pai. Mãe. Filho. Não interessa aprofundar as condições de cada um. Nunca é simples. Ponto.

Eu avancei para este blog para poder falar sobre como é ser mãe, jornalista de economia, estrangeira. Mulher profissional e mãe. Ou seja,  a equação tem uns efeitos complicadores pelo meio. Não tem outros piores, contudo.

Eu já vi homens a sofrerem com abortos e defendo que eles tenham direito a voz. Eles não estão acostumados a falar e prezam muito o silêncio. Mas se a partilha é um direito também deve ser um dever. Até porque ajuda. A quem ouve/lê e a quem fala/escreve.

Por isso, parabéns pelo artigo. Parabéns pelos homens que souberam falar. Só não gostei que usassem a palavra prenha como sinónimo de grávida. Mas isso talvez seja um problema meu.

Christiana, jornalista