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Expresso

Ela é carioca

No bonde da memória

O Brasil toca fundo em muita gente. Já deu para ver. Em mim também, como é mais que natural. Por isso, fui buscar ao baú das memórias, umas imagens cheias de graça.

Não vão ao caminho do mar, mas da floresta. Da maior floresta urbana do mundo. Era o caminho que eu fazia diariamente para ir para o Colégio Santa Marcelina, onde fiz parte do liceu.

São imagens diferentes das habituais do Rio de Janeiro. Pouco mudou. O caminho continua cercado de árvores, com um ar mais rarefeito do que o do resto da cidade. Marcou a minha memória.

Não tenho, contudo, só boas recordações. Também me lembro da manhã em que descia o Alto de ônibus e, numa curva, vi uma senhora sentada no chão com um homem deitado no colo. Na segunda-feira seguinte soube que eram os pais de uma colega do colégio, que tinham sido assaltados enquanto faziam uma caminhada. Ele morreu e a filha os encontrou como eu vi de dentro do ônibus.

Lembro ainda dos inúmeros acidentes de viação na curva que a imagem mostra, mas lembro, sobretudo, do cheiro de relva molhada, das jacas caídas no chão, do nevoeiro caindo sobre aquela parte da cidade. Lembro ainda das velas dos ritos do candomblé, a queimarem as árvores por dentro, à espera das benesses dos santos afro-brasileiros.

Estas imagens vêm, portanto, cheias de saudade. Não saudosismo. E mostram a linha de bonde (eléctrico) mais bonita do mundo. Pelo menos para mim, mesmo que nas minhas subidas e descidas já não houvesse bonde. O eléctrico já não circula. Ficou no passado e nas fotografias de Allen Morrison que aqui reproduzo.

Morrison explica também que esta foi a primeira linha de bonde eletrificada construída na América Latina e a última a ser desativada. Desde 1860 que se tentava subir as montanhas em torno do Rio de Janeiro através de estradas de ferro com dentes de engrenagem, tração a cabo e linhas de bonde aéreas.

Em 1870 foi proposta uma via férrea, desde a estação de bondes a tração animal na Tijuca (que foi a primeira linha de bonde aberta no Brasil em 1859 e, atalho eu, onde eu morava) até um parque a 385 metros de altitude, chamado Alto da Boa Vista.

O projeto não tinha saído do papel até que, em 1890, uma outra companhia, financiada por "franchising", foi chamada para construir uma linha de bonde eletrificada ao longo do mesmo trajecto, com sua usina de força montada no final da Rua Conde de Bonfim.

Hoje a usina de força está desativada, mas esta parte do Rio é ainda chamada de Usina (a parte da Tijuca onde morei durante 21 anos).

Christiana, jornalista