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Expresso

Ela é carioca

Maio de 68, os netos e Setúbal

Estou tão atrasada que vou ter de tocar uma valsa a três tempos para ver se conseguimos dançar a bom ritmo. As promessas são bonitas e deviam ser para cumprir, mas a maior parte das vezes cheiram a utopia. Mesmo com uma promessa tão simples como fazer acompanhar cada trabalho meu na Única com um correspondente post neste espaço. Mas, o sonho de que o trabalho na revista traria mais tempo de reflexão e produção já foi arquivado na gaveta das vãs ilusões. Feita introdução, que não conta como um tempo da valsa, vamos ao que interessa.

I. Mulheres de 68

A proposta era abordar o movimento do Maio de 68, passados 40 anos, de forma lateral. A necessidade de encontrar um ângulo jornalístico coloca-nos sempre perante dilemas sobre como tocar num assunto que já foi mexido e remexido de todas as formas imagináveis. Foram feitas várias sugestões, mas uma efeméride não é o trabalho mais apelativo e o tempo foi passando e o mesmo tempo começou a escassear. Quando acordámos, já não dava para fazer quase nada.

A concorrência tentou esmerar-se e nós fomos buscar uma ponta: quem eram e onde estavam as portuguesas que participaram nas barricadas de Paris? O processo é sempre o mesmo, mas nem por isso simples: saber quem são, onde estão, contactá-las, convencê-las. Ultrapassado o primeiro obstáculo, que tal ir mais longe e confrontá-la com uma representante da "nova geração"? Repete-se o mesmo mantra. Depois é montar a logística de as reunir e dar realidade ao projecto.

Foi aliciante perceber como Esther Mucznik, que estudava em Paris em 1968, relativizou as suas posições radicais da altura e como Marta Lança, a "nova mulher", mantém a defesa de ideais que a geração de Esther já arquivou. O retrato plasmado nas páginas da Única cumpriu um objectivo de dar voz a uma fatia de representantes no movimento que poucas vezes é ouvida, mas, inegavelmente, soube a pouco.

II. Os meus netos

O trabalho seguinte foi o de ir ao encontro de alguns netos de personalidades que marcaram, de uma forma ou de outra, a sociedade portuguesa em várias áreas. Foi um desafio descobri-los nas idades certas, nem tão jovens que fossem completamente inconsistentes nem tão maduros que já tivessem as suas opções completamente consolidadas. Houve duas negativas pelo caminho, ambas dadas pelos jovens e nunca pelos avós: dos netos de Mário Soares e Belmiro de Azevedo.

Mas, feito o trabalho, fica a sensação de dever cumprido. Benedita/Albino Aroso, Mariana/João Bénard da Costa, Guilherme/Alexandre Soares dos Santos, Cláudia/Otelo Saraiva de Carvalho, Manuel/Almeida Santos e Tiago/José Saramago fizeram o que se esperava deles. Mostraram que anda por aí uma nova geração de gente aplicada, interessada na formação académica e na preparação profissional, ambiciosa, ligada ao passado e as heranças, mas sobretudo, virada para o futuro. Reconhecem que os apelidos célebres até podem dar jeito, mas já perceberam que é preciso trabalhar para se manter à tona.

III. Setúbal, mais triste do que se queria

Trabalhar numa revista é isso mesmo. Quem, como eu, vem de uma área especializada nota imensa diferença, mas é óptimo poder alargar os horizontes, conhecer pessoas ligadas às mais variadas actividades. Desta vez, o mergulho foi fundo e doloroso. O ponto de partida foi a década de oitenta e a fome que assolou o distrito de Setúbal. O papel da Igreja como fonte de alerta, especialmente o protagonismo assumido por D. Manuel Martins, então bispo daquela diocese. O ponto de chegada era ver como está actualmente a zona.

Falámos com muitas das pessoas que estiveram associadas ao distrito nos anos oitenta, ouvimos muitas pessoas com responsabilidades actuais na região. Encontrámos os padres operários e aqueles que fizeram jejum, em solidariedade à população mais desfavorecida. Depois foi colocar o pé no chão, ir aos novos musseques, ocupações de antigas instalações fabris, visitar os bairros sociais, andar pelas favelas. No fim, fomos ouvir D. Manuel Martins, recordar outros tempos, receber novos alertas sobre os problemas actuais.

Infelizmente, a constatação é que o distrito mudou, parece mais bem preparado para passar pelas depressões inerentes aos ciclos económicos, mas continua a abrigar focos importantes de pobreza, de desqualificação, de precariedade. Setúbal está mais parecido com o resto do país, mostram os indicadores e confirmam os especialistas. O que não deixa de ser mau sinal. Se o país e Setúbal estão mais parecidos e se Setúbal ainda tem aquelas cicatrizes, o futuro não será tão promissor quanto se gostaria.

Christiana, jornalista