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Expresso

Ela é carioca

Eu e dois brasileiros em Berlim

A cidade é surpreendente no seu renascimento, depois de ter assistido à destruição completa de 70% da massa urbana. Berlim é mesmo assim: surpreende. Vasta e espalhada, falta gente para encher tanto espaço. Os arquitectos encontraram ali uma oportunidade para irem mais além. A cúpula do Reichstag brilha sem ofuscar.

Eu me surpreendi em Berlim: reencontrei a Cora e conheci o Rubens. Valeu.

A primeira vez que os meus caminhos se cruzaram com a Cora, Rónai de apelido devido à sua origem húngara, foi na casa do ex-embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido. Eu trabalhava no "Público" e estava no Rio de Janeiro para fazer reportagens a propósito dos 500 anos do encontro de Portugal e Brasil. Não falo de Descobrimentos. Por princípio, imaginem porquê...

Discreta na sua energia inesgotável, Cora foi-me apresentada como a mulher do Millôr. Ele é um mito, um combatente contra a ditadura militar, dotado de uma inesgotável capacidade de fazer humor e dessacralizar os se nos apresenta como inquestionável. O desenho, as palavras e as atitudes o revelam na sua imensa candura. Mas ela não fica atrás, embora não esteja nada preocupada com este tipo de considerações.

A Cora é um elemento vivo. Nunca sombra, sem se fazer holofote. Fala imenso, sabe imenso. De literatura, de computadores. É editora da área de tecnologia no "O Globo". Foi a primeira jornalista/fotógrafa a lançar um livro com imagens captadas com telemóveis, foi a primeira blogueira. Em Berlim, andava a emprestar um I-Phone para quem quisesse experimentar o novo "gagdet". Apaixonada por Portugal, Cora trouxe-me o melhor do Rio.

O Rubens é diferente. Nunca o tinha visto e, provavelmente, não mais o verei. Do alto dos seus mais de 60 anos, não deixava dúvidas sobre a sua forma ácida e desencantada de olhar o mundo. Atento, não deixava margens para comentários supérfluos. Paulista de sotaque, pai licenciado em Medicina na Faculdade de Berlim, mãe de origem francesa, que se encontraram em Lisboa em 1941, a caminho da fuga aos nazismo, ele actual presidente da Converge Comunicações.

A graça do Rubens, para além da sua história passada, do domínio da língua alemã, do humor descontente, era a sua missão. Estava em Berlim, como nós, para acompanhar a realização do Fórum Mundial de Banda Larga, mas aproveitava a ocasião para retornar à cidade do pai, onde tinha estado da última vez ainda o Check Point Charlie não era uma anedota, e para tentar descobrir as suas raízes. No Google descobrira um professor de telecomunicações com o seu apelido. O único. Viajou munido de um grande álbum de fotografias para tentar encontrar parecenças. Uma utopia nada desesperançada.

Eu voltei para Lisboa sem saber o resultado da aventura do Rubens e sem saber se a Cora conseguiu comprar o casaco que queria. É que estava frio em Berlim. Sobretudo lá para os lados do museu judeu e o seu jardim com 49 oliveiras russas. Sem surpresa.

Christiana, jornalista