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Expresso

Ela é carioca

Dois homens com mais de 50 e uma menina com menos de três

Os cinquenta anos fazem uma grande diferença. Vistos de perto, ainda fazem mais. Eu tenho 36, quase 37, e uma filha que ainda não tem três anos e dois homens com mais de 50 fizeram-me parar para pensar na difícil arte de praticar equilibrismo quotidiano entre o prazer, a profissão e a auto-satisfação. Um chefe, um protagonista de algumas das minhas notícias e a F. constituíram os vértices de um raciocínio não acabado.

Há algumas semanas, Nicolau Santos fez magia no auditório do edifício onde trabalhamos. Num sábado à tarde, convidou um grupo eclético para ouvir jazz e poesia. Eu vim com o M. e trouxe a F.. Uma temeridade, mas a pequena comportou-se, à maneira dela. Que é sempre surpreendente. Dançou, ouviu, correu, sobretudo lidou de forma lúdica e prazeirosa com uma reunião adulta.

Nicolau também se divertiu porque fez o que gosta: no meio de pessoas que gostam dele, abraçou poemas candentes, deu voz a outras vozes, ouviu boa música. Fomos todos para casa, acalentados. Eu fui a pensar no bom que era uma pessoa passar dos 50 tendo-se realizado profissionalmente, fazendo todos os dias algo que lhe dá pica e encontrando espaço para compatibilizar isso com algo que lhe arrepia e dividindo esse prazer para além das paredes de casa.

Com a F. no banco de trás do carro, voltando para Lisboa, tirei daquele fim de tarde uma primeira conclusão: vou tentar fazer a F. ver que podemos ser felizes fazendo algo que nos interessa, diverte e anima para ganhar o dinheiro necessário que nos dará liberdade para nos dedicarmos de alma ao que realmente nos fractura. Um caminho para tentarmos construir seres mais completos.

Só espero que ela não queira ser bailarina. Aqui tenho de abrir um parêntesis. Eu quis. Durante dez anos da minha vida, entre os nove e os 19, sonhei e trabalhei para ser bailarina clássica. O meu primeiro salário veio do ballet. Tinha algum jeito, alguma dedicação. Não tinha todo o jeito nem toda a dedicação que uma arte dependente do físico e da excepção exige. Sofri quando me confrontei com o falhanço do sonho. Escolhi outro caminho. Lá vou eu. Não foi fácil e fica sempre uma saudade.

O que eu quero dizer é que quando o amor passa pela idade e pelo corpo, é impossível remetê-lo para o fim de uma tarde de sábado. Toda a urgência é pouca. Toda a dedicação é parca. Espero que não seja esta a centelha da F. É sempre mais difícil.

O outro homem que me fez pensar no papel dos pais no encaminhamento dos filhos foi João Talone. Mais um dos senhores do mundo dos negócios que entreabriu a porta da sua vida a Anabela Mota Ribeiro no Jornal de Negócios. No fim das contas, quem mais se viu na entrevista foi o menino Talone, de orelhas de abano, lágrimas fáceis, implicativo, ambicioso e ansioso de independência.

Durante três anos lidei com o João Talone presidente da EDP. Fui mais uma das que tive dificuldades em entender o que ele dizia. Anabela Mota Ribeiro também. Parece que a mãe e as filhas dele também. Que alívio, foram três anos a pensar que a culpa era do meu ouvido brasileiro. Como a entrevistadora, também tive oportunidade de lhe entrar em casa.

Também me surpreendi com o ar meio de museu daquele espaço requintado, arrumado. Naqueles três anos, como a entrevistadora, muitas vezes me surpreendi com a sua franqueza e com a sempre inesperada ansiedade da sua resposta: tanto podia dizer mais do que se previa quanto fechar-se sem hipótese de levantar a guarda.

A surpresa da entrevista, contudo, foi a revelação de um homem mais cheio de espaços por onde podemos entrar. Abriu uma grande brecha em mim: saber como mãe até onde a nossa exigência vai tatuar a alma de uma criança. Talone é explícito: não esqueceu nenhuma das recompensas dadas pelos seus pais a cada conquista. O lanche com gravata, na casa de chá, quando aprendeu a ler; o relógio à prova de água quando fez o quinto ano do liceu; o Fiat quando acabou o curso... Toda uma vida.

O que realmente sentiu aquele homem quando saiu do BCP sem ter chegado ao ápice? O que sentiu Talone quando partiu da EDP em ruptura com o Governo e com accionistas a suportarem outra solução? O que sentirá Talone se, como diz na entrevista, o seu novo projecto de capital privado não for o de maior sucesso da Península Ibérica?

É muito cedo, demasiado cedo, para saber qual vai ser o caminho da F. Como abrir-lhe as portas sem colocar nenhum cadeado e, sobretudo, sem que a chave destas portas esteja sempre na minha mão? Talvez, só depois que ela ultrapasse a bela fronteira dos 50 anos vamos poder perceber se soubemos partilhar este segredo. Vou tentar me lembrar deste dois exemplos.



Christiana, jornalista