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Expresso

Ela é carioca

De onde menos se espera...

Do Brasil: O Lula venceu por mais de 60% dos votos expressos. Há muito que deixei de ser eleitora no Brasil. Carioca sempre, eleitora já não. As explosões populares de apoio a um candidato, infelizmente, já não me comovem. A desconfiança é maior do que a esperança. Esta inundou a todos no primeiro mandato, agora não. Os sinais dados de que a corrupção parece inevitável não ajudam. Fica a torcida, porque, quando menos se espera, surge um brilho.

Do Iraque: Estou estupefacta com as mais recentes imagens chegadas do Iraque. Parece que a estratégia de resistência aos americanos está a mudar.

Agora, não só morrem dezenas de iraquianos diariamente com as bombas que já não espantam os telejornais de todo o mundo, como estão a surgir atiradores furtivos, empenhados em ver os soldados americanos caírem como tordos.

As imagens são brutais e servem de metáfora da fragilidade a que se expôs a nação americana, à mercê das balas vindas de todos os lados. O pior é que a cada soldado que cai, destrói-se um pouco mais do castelo de cartas que constitui a insegurança internacional em que vivemos. O choque maior é do susto. O impacto é mortal e a bala surge de onde menos se espera.

De Portugal: Não é a primeira vez que cito aqui as entrevistas da Anabela Mota Ribeiro no "Jornal de Negócios". Desta vez, recupero a última, com António Barreto. Não tanto pelo entrevistado, mas pelo que fica de algumas interpretações da jornalista na sua introdução à conversa.

Fala de homens que, apesar de estarem "imersos na multidão", estão "suficientemente recuados para sobre ela conseguirem falar". Fala de um homem que, segundo ela, separa claramente as"anotações de alma" das interpretações sociais. De um sujeito político, "leitor do meio em que se insere".

Também eu tento aproveitar a pertença ao meio, sem perder o distanciamento que permite ver e não só olhar.

Às vezes o barulho de fazer parte da multidão é de tal ordem que nos impede de focalizar o olhar, de interpretar o que se vê.Como jornalista, esta é uma tarefa imprescindível, uma exigência quotidiana, uma espécie oração matutina.

As anotações da alma ficam para momentos como este, para espaços abertos como este. É de fragmentos como estes, que nos situam na nossa própria realidade, que deve ser feito o jornalismo. Quando menos se espera.



Christiana, jornalista