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Expresso

Ela é carioca

Caro sócio da PT,

Caro sócio da PT,

 

 

Escrevo-te porque estou confusa. Os últimos dias sucederam-se a uma velocidade vertiginosa e já não sei mais para onde olhar e o que pensar daquilo que os jornais não se cansaram de me dizer que era a maior operação financeira jamais lançada em Portugal. Na verdade, como se diz lá no meu Brasil, estou me sentindo mais perdida do que cego em tiroteio.

 

Primeiro foi a Sonae a oferecer 9,50 euros por cada acção da PT e garantir que não dava nem mais um tostão, a não ser que encontrasse petróleo ou diamantes debaixo do Fórum Picoas. Não encontrou e mesmo assim abriu os cordões à Bolsa e ofereceu 10,50 euros. É caso para dizer que aqui não se aplica o ditado lá da minha terra de quem nasce para tostão nunca chega a vintém.

 

Que a administração da PT estava contra a OPA da Sonae até eu já tinha percebido, mas que estava disposta a raspar o fundo do tacho não queria acreditar. Na terça-feira de Carnaval – mais uma vez como se diz nos Brasis que é para tudo se acabar na Quarta-Feira de Cinzas...  -  lá convocou todo mundo para dizer que duplicavam o que já tinham oferecido e que estavam dispostos a subir a parada em mais um euro e pagar até 11,50 por cada acção da PT que pretendem recomprar. É verdade que, enquanto a Sonae se propõe concorrer à maioria do capital, a administração promete comprar apenas 16,5%.

 

Despidas as fantasias, ficam as dúvidas. É que depois da folia, vieram as conversetas, com cada um a dizer mal do outro. O BES quer me convencer que a Sonae não é nacional e o grupo de Belmiro de Azevedo explica que para o BES o que está em causa é a manutenção do poder de influência sobre a PT.

 

O pior foi a briga entre o presidente da mesa da assembleia-geral e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários sobre a data até a quando poderá ser revogado o bloqueio das acções. Cada um diz que tem razão mas eu quero ver quem é vai fazer valer a sua palavra.

 

Confesso que começo a me sentir – como se diz no meu Brasil tupiniquim – pior do que o cocô do cavalo do bandido ou, no melhor dos casos, como bosta na água. Parece que nem dormindo em formol vou conseguir chegar com boa aparência à assembleia-geral da próxima sexta-feira. Mas não vou faltar, quero ver quem é que vai apanhar que nem boi ladrão. Alguém vai sair de lá a perder.

 

Conto com a tua presença na reunião de sexta-feira e espero que a PT nos reserve alguns bolinhos para entreter o estômago porque saco vazio não fica de pé. Ah, e ainda poderemos voltar de metro para casa porque o chefe da banda quer que a reunião acabe antes da meia-noite.

 

Beijinhos,

 

 

Christiana, jornalista

 

 

PS: Esta carta foi escrita com dois objectivos: primeiro dar-vos conta da minha perplexidade perante a forma como se têm desenrolado os últimos dias da OPA sobre a PT e, em segundo lugar, invocar expressões brasileiras que alguns colegas de profissão gostaram de escutar esta semana nas longas horas de espera pelo início da conferência de imprensa da administração da PT.