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Ela é carioca

Afinal, o que queremos nós?





Pode parecer pouco, mas não é. É mesmo muito. Pode é não ter glamour. As aventuras desta jornalista de economia não são constituídas só das controversas relações com as fontes, mas também pelo sufoco de chegar incólume ao fim de um dia de trabalho. Já agora, afinal, não era varicela. Diz o pediatra que as borbulhas são das picadas de um bicho (?).



 A batalha desta semana na secretária do jornal foi com um determinado responsável por um cargo público que começou por tentar descobrir uma das minhas fontes de informação, passou pela ameaça velada de me levar aos tribunais e acabou por dar a entender que eu fazia o jogo de uma das partes envolvidas em um dos artigos que escrevo nesta edição.



A aventura seguinte foi abrir os jornais com o fôlego em suspenso para ver se algum colega tinha "sacado" um determinado documento que eu consegui manter em segredo até agora. A ansiedade é consequência de saber que o caminho que escolhi para mim (até agora) no jornalismo é um dos mais árduos: descobrir as informações que deveriam ficar sigilosas. Arriscado, pouco simpático, estressante, mas aliciante.



Parece pouco, mas não é. Parece menos visto de fora, mas como diz um eminente colega de profissão: je cherche les compliments. Os portugueses é que são poupados. No fundo, o que todos nós queremos é sempre o mesmo.



Quero deixar uma certeza: o Sol nasceu, mas nós não entramos nas sombras.



Ficam mais dois pensamentos.



O primeiro para Oriana Fallaci. Ainda me lembro do primeiro livro que comprei. Em Boston, numa revenda de livros usados. Há nove anos. "Interview with History". Deliciei-me a ler a irreverência daquela italiana, que não se vergava perante os seus entrevistados.



Vai para ela o meu silêncio, num momento do jornalismo em que as pressões das fontes, das administrações e até a conivência de colegas e superiores torna cada vez mais difícil e solitário seguir o caminho do jornalismo de confronto.



O segundo pensamento vai para os navios negreiros que todos os dias abalroam as costas europeias. Na época das colonizações, os africanos eram capturados e enviados em navios insalubres para trabalho escravo. Forçado.



O que nós fizemos e deixámos que se fizesse em África para que hoje sejam os próprios africanos a pagarem para embarcar nestes novos navios negreiros para vir para uma Europa que não os quer?





"Oriana sentou-se entre as ervas e as flores a ver correr a água. De repente ouviu uma voz que a chamava:

- Oriana, Oriana.

A fada voltou-se e viu um peixe a saltar na areia.

- Salva-me, Oriana - gritava o peixe. - Dei um salto atrás de uma mosca e caí fora do rio.

Oriana agarrou no peixe e tornou a pô-lo na água.

- Obrigado, muito obrigado - disse o peixe, fazendo muitas mesuras. - Salvaste-me a vida e a vida de um peixe é uma vida deliciosa. Muito obrigado, Oriana. Se precisares de alguma coisa de mim lembra-te que eu estou sempre às tuas ordens.

- Obrigado - disse Oriana - agora não preciso de nada.

- Mas lembra-te da minha promessa. Nunca esquecerei que te devo a vida. Pede-me tudo o que quiseres. Sem ti eu morreria miserávelmente asfixiado entre os trevos e as margaridas.

A minha gratidão é eterna." (A Fada Oriana, livro infantil escrito por Sophia de Mello Breyner Andresen)



Christiana, jornalista



Chmartins@expresso.pt