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Ela é carioca

A ressaca da OPA

Tenho colegas que disseram na semana passada estar cansados da OPA da Sonaecom sobre a PT. Tenho dificuldade em acreditar na sinceridade destas afirmações. Eu confesso que passei o fim de semana com um pensamento recorrente: como os protagonistas da maior operação financeira jamais lançada em Portugal estarão a lidar com o dia a seguir ao abortamento da operação?

 

Belmiro e Paulo Azevedo estarão decididos a desistir de Portugal? Henrique Granadeiro e sua equipa estarão a saborear a vitória ou a pensar nos favores concedidos e nas promessas assumidas que os deixarão a eles, e sobretudo a empresa, reféns das alianças firmadas? José Sócrates não terá dúvidas entre a escolha pela manutenção de uma PT disponível para exercer a sua influência e a existência de um grupo como a Sonae que acumula capital de queixa, não fosse este o maior empregador privado do país? Pelo menos estes não terão tido dúvidas durante o fim de semana? Eu que não tenho nada a ver com a história, a não ser o dever de a relatar, tive.

 

A OPA durou demasiado tempo, é verdade. Houve tempo para que todos e sublinho todos os protagonistas hesitassem, dessem sinais contraditórios uns aos outros e à opinião pública. O processo não foi sempre "fair". Os reguladores foram insultados e tiveram a sua independência posta em causa, os envolvidos oscilaram entre a cordialidade superficial e a ferocidade evidente. Novos presidentes falaram mal da gestão dos antecedentes, os jornalistas tiveram tempo para fazer o melhor e o pior da profissão. As opiniões partidarizaram-se.

 

Agora acabou. Não me parece. Há muito para dizer, explicar, antecipar. E não só do ponto de vista estratégico das empresas, mas do ponto de vista da defesa das posições individuais.

 

O Expresso, mais uma vez, teve coragem de assumir a liderança de um jornalismo inovador. Entrou na assembleia-geral da única forma que lhe era permitido: comprou acções em nome da Sojornal e mandatou-me como a jornalista que acompanhou a reunião por dentro. Não foi fácil, mas foi rico. A ética, ao contrário do que avançam os discursos conservadores, não foi em nada beliscada. Pelo contrário. Serviu para que se pudesse treinar o exercício do jornalismo em directo, o que nos coloca sobre o fio da navalha, com direito a erros de precipitação.

 

O mais importante foi, contudo, ver a festa em que acabou a assembleia. O palco foi invadido e, por mais de dez minutos, interesses aparentemente contraditórios deram fortes abraços. Afinal, o que tem de tanto em comum os administradores da CGD com os do BES ou da PT ou os representantes dos minoritários? Continuo a pensar, numa espécie de ressaca, e a não acreditar como dizem alguns colegas, que estavam cansados da OPA. Na minha opinião, esta ainda não acabou.

 

Christiana, jornalista