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Expresso

Ela é carioca

A falta que as pessoas nos fazem

 Em meio à abundância visual e ao exagero carnal que constitui o Carnaval brasileiro, capaz de conceder uma espécie de autorização generalizada do cumprimento dos desejos eróticos reprimidos, fui ver o filme Little Children.

  A tradução para português é equívoca, incorrecta mesmo. A definição de pecado traz em si, implícita, uma avaliação moral, uma interpretação canônica. É perigosa. O título em inglês é crítico, mas verídico. Quando se trata de pulsões, somos todos criancinhas.

  A frase mais poderosa é quando a mãe do pedófilo explica-lhe que todos nós, humanos, somos um milagre porque conseguimos seguir adiante, todos os dias, apesar de sabermos da fragilidade absoluta da nossa felicidade, ao sabermos que vamos perder as pessoas que nos são caras. Ela explica, de maneira tão directa, porque as regras da sociedade acabam por ser respeitadas. O medo da perda nos impinge o cumprimento de regras para evitarmos a pena do repúdio, da marginalidade imposta. Da solidão.

   Por falar em solidão profunda, a cena mais dura é quando o pedófilo se masturba na frente da potencial namorada. A dor da presença indevida torna-se incómoda.

  Apesar da utilização de alguns clichés, o filme nos faz pensar sobre a improbabilidade das relações. Sobre a força dos desejos reprimidos. Sobre o susto dos segredos. Mosta, sobretudo, como continuamos mal resolvidos quando o assunto é sexo e como é difícil caminhar na linha entre o cumprimento forçado de regras que nos são impostas e a falta de referências quando o desejo domina os comportamentos.

   Um tema difícil que me trouxe a memória Nélson Rodrigues, o anjo pornográfico como o chamou o jornalista e biógrafo Ruy Castro. O dramaturgo que deixou claras as tensões reprimidas das famílias da classe média brasileira. Temas que chocaram a sociedade conservadora e hipócrita da segunda metade do século XX. O moralista que disse, sem que fosse para fazer humor, que o amante de toda mulher séria era o ginecologista e que encontrou a fórmula mais penosa para referir uma traição amorosa: "Perdoa-me por me traíres".

  Com esta turbulência na mente, deparo-me com um texto nas páginas finais da última edição da "Pública". Um texto de um marido para a sua mulher, que morreu de cancro há um ano. A mulher era a Cuca, que eu só conheci por este nome, quando ela trabalhava como secretária da secção de Internacional do "Público".

   É surpreendente como uma pessoa tão discreta, quase apagada - cujas lembranças mais marcantes para mim são o sorriso fugidio e a enorme barriga da sua gravidez de gémeos - choca tanto pela brutalidade da ausência. O texto é simples e emociona. Fala justamente da falta que o amor faz.



    Christiana, jornalista